publicado originalmente em 26/01/2008
Ontem eu estava numa festa de aniversário de um amigo artista plástico, e num dado momento surgiu como assunto uma pesquisa de mestrado sobre Celeida Tostes, incrível artista brasileira já falecida, que usava a cerâmica vermelha como veículo de seu trabalho, e que por causa do material usado em sua obra, sofreu muito preconceito ao longo da carreira.




Passagem, 1979
Celeida Tostes
Tiago Carneiro da Cunha, 2007
'cliche derretendo', faianca policromada

Tiago Carneiro da Cunha, 2007
'auto-retrato afundando', faianca policromada
De uns 4 anos para cá, tem sido a cada dia mais comum trabalhos de artistas plásticos contemporâneos brasileiros que se usam da procelana ou faiança como meio.
Quando comecei a colecionar louça como hobbie, em 2005, comecei também a ter que lidar com os primeiros "acidentes de coleção": louças compradas pela internet que me chegaram quebradas, e peças que eu acidentalmente quebrei. Aqueles cacos de louça me pareceram sedutores demais; pensei em transformá-los em um trabalho de arte, fazendo algum tipo de assemblage com os cacos.
Pois foi exatamente quando me deparei com peças de Jorge Barrão, que iam muito além do que eu havia imaginado em meu projeto, eram muito mais "potentes", pertinentes e oportunas, principalmente sendo do Barrão. Então engavetei minha idéia. Barrão criou peças grandes à partir de colagem de cacos de porcelana, criando formas quase abstratas e muito estranhas (num bom sentido!).



Jorge Barrão, 2009 (?)

Tatiana Grimberg, 2005; Sem título - O trabalho possui várias peças feitas com impressãode partes do corpo em biscuit de porcelana
Teve até mesmo um "seguidor" (imitador ?) do Barrão, fabricando "monstros" abstratos com colagem de cacos de louça. O mais absurdo foi ver em uma das edições da exposição "Aquisições Recentes" da coleção Gilberto Chateaubriand, no MAM-RJ, quase lado a lado, um novo e fantástico trabalho de Barrão com pedaços de peças de porcelana, neste caso bibelots, e um outro trabalho, uma cópia muito mal feita e equivocada do trabalho de Barrão. Não entendo o que leva o Chateaubriand a querer comprar a cópia ordinária de um trabalho tão bom que ele já possui! Em tempo: este artista de obras "genéricas" em anos anteriores fazia uma pintura de azulejos que obviamente era um "remix pop" das pinturas da Adriana Varejão. Sintomático.
Isso me faz pensar em como o fraco mercado de arte brasileira é orientado por "modas", e como infelizmente vários artistas se deixam levar por isso. Ao invés do trabalho e das necessidades expressivas de cada artista ditar qual material, maneira ou forma um certo trabalho deve se dar, muitos artistas (fracos e sem personalidade) se orientam pelo que "deu certo". E esquecem que um trabalho de arte antes de mais nada deve representar uma verdade pessoal, profunda, refletida, comprometida, pois só assim um trabalho será autêntico, sincero e potente, como qualquer manifestação artística.
Como já disse antes, o trabalho do Barrão é bom, e faz total sentido ter sido feito por ele, visto sua história e produção. O trabalho do Tiago é uma consequência natural de todo um processo anterior em escultura, uma hora ele chegaria mesmo à cerâmica. E como eles, há vários outros artistas que realizaram bons trabalhos com porcelana ou cerâmica.
Há também a louça "decorada" por vermes e insetos negros de Regina Silveira, uma artista da qual não há como ter dúvidas de sua rica e profunda pesquisa plástica. Eu queria MUITO ter algumas destas peças dela. De preferência as mais saturadas de vermes e insetos (infelizmente não encontrei foto).
Mas há também muita bobagem, muita gratuidade, em função de uma tentaviva desesperada de fazer parte da "onda mais quente do momento", para rapidamente ser aceito e pertencer a um circuito de arte, cada dia mais superficial e orientado pelo mercado e pelo capital.
Por conta deste longo papo de ontem, resolvi pesquisar algumas imagens sobre esse assunto para colocar aqui no blog, independente se eu acho que são trabalho interessantes, legítimos, que fazem sentido na produção do artista, ou não. Infelizmente não consegui encontrar muitos exemplos, mas caso encontre outros futuramente, incluo.


Carlito Carvalhosa, 2000
EKWC, Países Baixos
Porcelana
40 x 29 x 28 cm







