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Mais telhas de beirais e azulejos portugueses no Rio de Janeiro

Hoje no meu mural do Facebook, tive a grata surpresa de ver compartilhada uma foto da área do Cais e Jardins do Valongo, região que está sendo recuperada de forma majestosa pela prefeitura do Rio de Janeiro, em função das obras de preparação para as Olimpíadas de 2016.

Abaixo uma foto tirada ontem, dia 1 de julho de 2012, dia em que a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro foi elevada à categoria de Patrimônio Cultural da Humanidade, e dia da inauguração do espaço que se construiu para que todos possam conhecer os achados arqueológicos do antigo Cais do Valongo, também conhecido como Cais da Imperatriz, projetado pelo arquiteto francês Grandjean de Montigny em 1843, pois foi lá que a Imperatriz Teresa Cristina desembarcou ao chegar no Brasil. Depois, com as reformas que visavam o afrancesamento do Rio de Janeiro, tanto na virada do século XIX para XX, e também no início do século XX, o cais foi enterrado e desapareceu sob uma praça e avenida. Cabe notar também que nestas reformas o mar foi empurrado para bem longe, após uma série de aterros, visando ampliar e acertar o desenho da região central da cidade. Uma parte enorme do que hoje é a região portuária, bem como o centro do Rio de Janeiro, originalmente pertencia ao mar.

Infelizmente este cais não conta apenas histórias alegres como a da chegada da Imperatriz, mas principalemte histórias tristes de um passado negro da história luso-brasileira, pois aí desembarcaram milhares de escravos, arrancados de suas pátrias para o trabalho forçado na colônia portuguesa.

Neste link, é possível ver algumas fotos do processo de escavação e recuperação do Cais do Valongo.

O Morro do Valongo é um dos pontos mais antigos da cidade, por ser na região portuária, e como ficou abandonado por muitas e muitas décadas, preserva preciosidades do nosso passado. E quando falamos no passado do Rio de Janeiro, em particular finais de séxulo XIX, falamos naturalmente do passado lusitano da cidade, o que para mim é sempre motivo de felicidade.

Abaixo vocês podem ver algumas fotos da "Pedra do Sal", na área do Valongo, que por muito pouco poderia até ser confundida com algum pedaço do Alfama, em Lisboa (talvez com um pouco de exagero da minha parte?).



praticamente, "figuras de convite", pintadas na subida da Pedra do Sal.





Mas as fotos que eu fiquei de queixo caído foram estas que apresento abaixo, do Morro da Conceição, ali também na mesma região, com velhos conhecidos nossos, tanto aqui, quanto no blogs dos amigos portugueses, como a Maria Andrade, a Maria Paula e o LuisY. Que surpresa! Mais uma região onde ainda há telhões de beirais e azulejos portugueses aqui no Rio de Janeiro! E eu que pensava que eles praticamente tinham desaparecido!




O Museu do Açude com seu rico acervo de telhas e azulejos portugueses é uma jóia do Rio de Janeiro, mas encontrar estas peças cerâmicas ainda nos locais onde originalmente foram colocados, como coisa cotidiana, sem a pompa e solenidade de um museu, para mim é de um valor inestimável.

Já estou me programando para fazer um passeio pela região, pois certamente haverá muito mais para ser visto e fotografado em detalhes. Fico muito feliz que esta área não esteja mais entregue ao descaso do poder público, e espero que a população entenda a importância deste acervo histórico, e passe a amá-lo e cuidá-lo.

Todas as fotos deste post são de Eduardo Rua - http://www.facebook.com/eduardor.rua

Tesouros arqueológicos escondidos nos subterrâneos de Manaus

fonte: http://acritica.uol.com.br/manaus/Manaus-Amazonas-Amazonia_0_605339665.html
por Cassandra Castro, em 15 de Dezembro de 2011

Tesouros escondidos debaixo de calçadas, avenidas, construções...Muitos que andam por Manaus sequer imaginam a riqueza que está escondida nos seus subterrâneos. Um pouco da Manaus colonial e até pré colonial está sendo resgatado pelo esforço e dedicação de profissionais que escolheram desvendar este complexo entrelaçado de épocas, costumes e artefatos. Um dos locais onde podemos encontrar um pouco deste universo de descobertas arqueológicas é o laboratório Alfredo Mendonça de Souza que funciona dentro do complexo de museus situado no Palacete Provincial, centro de Manaus.

Quando lá chegamos, somos cativados pela curiosidade das peças que vemos: filtros de cerâmica de grés intactos; garrafas de cerveja, de refrigerantes, de remédios, esculturas, pedaços de louças... A maioria destas preciosidades foi achada em locais distintos do centro de Manaus. Destes lugares são retiradas toneladas de material, resquícios de povos que viveram aqui bem antes de nós e que deixaram impregnadas nos locais por onde passaram , as marcas deste pedaço da nossa história. A turismóloga Socorro Paiva mostra parte de um acervo baseado nas 3 toneladas de material arqueológico retirado durante as obras de restauração da Catedral Metropolitana de Manaus,em 2002. A maioria do material ainda não foi analisada e está guardada em engradados, com os objetos cuidadosamente embalados .


Fragmentos pequenos que, juntos, revelam beleza de prato encontrado
durante escavações na área da catedral (foto: Cassandra Castro)
Uma mostra do que foi encontrado pode ser vista no laboratório. Socorro explica que o trabalho feito pela equipe de profissionais que trabalha aqui é demorado e delicado “ O visitante que chega aqui pode ver as principais etapas do fazer arqueológico e mergulhar um pouco no fascinante mundo que é buscar conhecer os nossos antepassados”, conta.

Podemos ver garrafas de louça importadas de Portugal, Dinamarca e Inglaterra, todas para acondicionar cerveja e que surgem aos milhares sempre que são realizadas obras que implicam sempre em mexer com solo e escavações no centro de Manaus. Exemplos não faltam e parte deles está ao alcance de quem visitar a exposição montada dentro do laboratório de arqueologia do Palacete Provincial. Muitas peças chamam a atenção pela beleza e diversidade. Locais como as esquinas da avenida Eduardo Ribeiro com Quintino Bocaiúva, Getúlio Vargas com rua Lauro Cavalcante, ruas José Paranaguá, Marcílio Dias, Costa Azevedo, Lobo D’Almada, todas no centro de Manaus, são exemplos de locais de onde muito materialarqueológico foi recolhido. Boa parte deles é levada por trabalhadores da construção civil ou até donos das propriedades que passam por obras e que acharam algo diferente. Por desconhecimento, alguns só entregam ao laboratório peças inteiras, mas muitas vezes, até objetos que estejam quebrados podem ter valor para estudo.

Atualmente, a equipe está no processo de levantamento dos fragmentos e peças de louças encontrados nos diversos locais que apresentaram registros de artefatos arqueológicos na cidade. O laboratório acaba funcionando como uma forma de sensibilizar a sociedade para a importância de resgate destas peças que fazem parte de um grande quebra-cabeças da história de Manaus. O laboratório é aberto à visitação, de terça a sexta, das 8h às 17h e fica localizado no Palacete Provincial , na praça Heliodoro Balbi, também conhecida como praça da Polícia, no centro da cidade. A entrada é franca.

O tesouro encontrado nas escavações do Porto do Rio


fonte: http://oglobo.globo.com/rio/o-tesouro-encontrado-nas-escavacoes-do-porto-do-rio-5104975

Transformada num grande canteiro de obras, a Zona Portuária do Rio se tornou um valioso campo de arqueologia urbana. Desde janeiro de 2011, pelo menos quatro equipes de especialistas vêm percorrendo cerca de 5 milhões de metros quadrados, num trabalho de garimpagem que precede as construções do projeto Porto Maravilha, de revitalização e remodelação. Até agora foram recolhidos — ou apenas registrados — pedaços de cerâmica, cachimbo, ossos de animais, moedas, pulseiras, colares, resquícios de muralhas e outros vestígios que revelam um pouco da história da ocupação da cidade nos séculos XVIII e XIX. Só de canhões, já foram contabilizados sete. Uma lista que, segundo o último levantamento, totaliza 80 mil peças, somente na área que está sendo pesquisada pela equipe do Consórcio Porto Novo, responsável pelas escavações na maior parte da região.



Os últimos achados foram dois canhões, resgatados do subsolo da Praça Mauá e da altura da Avenida Primeiro de Março, na semana retrasada. Artilharia, que, pelos cálculos dos arqueólogos, parece datar dos séculos XVIII e XIX, e mede entre 2 e 4 metros.


Lá também foram descobertas, em abril, três âncoras medindo entre 3,5 metros e 4,35 metros que estavam no subsolo da região e, de acordo com as primeiras avaliações, datam da mesma época dos canhões.



Naquelas áreas também foi desenterrada, no dia 4 de maio, a pedra fundamental das Docas Dom Pedro II, lavrada em 15 de setembro de 1871 pelo engenheiro André Rebouças. As âncoras, os canhões e três balas de canhão, foram os objetos mais significativos recolhidos até o momento, na avaliação de Erika Gonzales.

O material, que está sendo classificado e pesquisado no Laboratório de Antropologia Biológica da Uerj, traz objetos que impressionam pelo bom estado de conservação, como um conjunto de três tinteiros ingleses de cerâmica, retirados intactos, durante escavações nos arredores da Praça Mauá. Num poço situado perto de um antigo arsenal da Marinha, as equipes se depararam com uma garrafa em perfeito estado, que acreditam ser do século XVIII. O acervo inclui, ainda, faianças inglesas do século XIX, cabos de colher, restos de sola de sapato de couro e pedaços de dentes de cavalos. Na Praça Mauá, foram prospectados principalmente peças do século XIX. Já na Primeiro de Março, alguns objetos do final do século XVIII. Nas proximidades da Avenida Primeiro de Março, esquina com a rua Visconde de Inhaúma, surgiu uma muralha de 50 metros de extensão, pertencente a uma artilharia da Marinha. Um outro pedaço de muralha foi desvendado mês passado. Segundo a prefeitura, até agora as escavações não provocaram atrasos nas obras do Porto Maravilha.

Os arqueólogos da Concessionária Porto Novo estão catalogando as peças e vão lançar em breve um museu virtual, onde o internauta poderá ver fotos e vídeos, além de um arqueoparque, que vai reproduzir em 3D alguns dos prédios e ruas dos séculos XVIII e XIX.

Escavações revelam tesouros arqueológicos no Leblon

Num dos quarteirões do Leblon, onde o metro quadrado é um dos mais valorizados do Rio, a descoberta de um tesouro arqueológico promete trazer novas informações sobre a história da ocupação do bairro.

As arqueólogas Jackeline de Macedo e Ana Cristina Sampaio trabalham desde fevereiro na área, onde até o ano passado funcionava uma lavanderia. A pesquisa começou a pedido do Instituto do Patrimônio Histórico Artístico Nacional (Iphan) e da prefeitura, no processo de licenciamento para a construção de um prédio no local. Como o Leblon é Área de Preservação do Ambiente Cultural e a General Urquiza fica próxima à Rua Dias Ferreira — que, segundo historiadores, seria o caminho do Quilombo do Leblon — a pesquisa foi solicitada antes do início das obras no terreno.





— Começamos as escavações em fevereiro e logo achamos fragmentos de louças finas produzidas fora do Brasil, no século XIX. Isso estava de acordo com a história de povoamento do Leblon no século XIX, quando esse terreno foi adquirido pelo francês Charles Leblon.

Logo depois começamos a achar objetos mais antigos, que indicavam uma ocupação anterior — explica Jackeline, coordenadora da pesquisa arqueológica.  Um dos exemplos que ilustra a ocupação anterior é uma moeda portuguesa datada de 1700.





foto:  Washington Fajardo

Após o término das pesquisas, a área será liberada para a nova construção. As peças estão sendo levadas para o Iphan e parte delas poderá ser exposta em museus.

Outro marco de ocupação no século XVIII são os vestígios de um muro no terreno — pelas características, grandes pedras e uma espécie de argamassa com areia e conchas, tudo indica que seja uma construção do século XVIII. Provavelmente é parte de uma estrutura maior.

Alguns objetos indicam ainda que um dos bairros mais valorizados do Rio era uma área de difícil acesso nos séculos XVIII e XIX, como ossos e pedaços de vidro, moldados em formato de ferramentas.

Francês deu nome ao bairro

Um dos bairros cariocas mais conhecidos do país, por já ter servido como cenário de diferentes produções da TV, o Leblon foi oficialmente fundado em julho de 1919, pelo então prefeito do Distrito Federal, Carlos Sampaio. Antes disso, o bairro já era chamado pelo nome que carrega até hoje, herança do francês Charles Leblon, dono de umq chácara cuja área se estendia da Rua Visconde de Albuquerque até a Rua General Urquiza ,e da praia até a Rua Dias Ferreira.

Após adquirir as terras, por volta de 1845, Leblon criou uma empresa que fazia a exploração da pesca de baleia. Na época, o óleo extraído do mamífero era utilizado como combustível no sistema de iluminação pública e na construção civil. Antes da chegada de Charles Leblon, a região abrigava chácaras e casas populares, sobretudo de pescadores.

Em 1857, Charles Leblon vendeu suas terras para Francisco José Fialho, que, por sua vez, distribuiu os terrenos entre alguns compradores.

Louça fabricada no início do século em São Paulo tinha identidade própria

entrevista com Rafael Souza, Aqueólogo
fonte: http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia182/2010/10/23/diversaoearte,i=219524/PORCELANA+FABRICADA+NO+INICIO+DO+SECULO+NO+BRASIL+TINHA+IDENTIDADE+PROPRIA.shtml

Como surgiu o interesse pelo estudo das louças brasileiras?
A louça, enquanto artefato arqueológico, é um rico material que possibilita inúmeras reflexões em torno de seus usuários e fabricantes, em diferentes épocas. A louça branca é bastante estudada como objeto indicador de status socioeconômico e como referência cronológica. Desse modo, a não identificação dessa louça como brasileira nos sítios arqueológicos, mas como inglesa, por exemplo, poderia fazer com que a interpretação construída em torno da história das pessoas que ali moraram e as utilizaram recuasse no tempo, além de transformar “operários” em “barões”, uma vez que a louça, naquele período (primeiras décadas do século 20), passou a ser consumida por muitos grupos. A presença das fábricas, pelo menos em São Paulo, possibilitou diferentes formas de acesso a elas que não necessariamente pela compra em dinheiro. Por fim, meu interesse surgiu também por uma crítica à visão tradicional de que as cidades não possuem potencial arqueológico, por estarem “destruídas”. Esta é uma visão errônea. A cidade possui um enorme potencial arqueológico.

Quais são as principais diferenças entre a louça brasileira do início do século e a européia?
As principais diferenças relacionam-se especialmente aos atributos decorativos, isto é, padrões decorativos, técnicas de produção das decorações, e de modo mais amplo, os motivos e temas. É importante ter em mente que tanto os motivos como os temas nas louças dialogam com práticas e preferências de consumo dos consumidores, além do que foi pensado pelos proprietários da fábrica para a louça; deste modo, algumas louças brasileiras apresentam decorações em florais bastante específicos, com representações de margaridas e flores de maracujá, muitas vezes organizadas no campo decorativo segundo um esquema iconográfico bastante próprio. Por outro lado, existem alguns diferenciais ligados a tecnologia de produção das faianças finas brasileiras, como, por exemplo, a composição dos vidrados, a espessura das peças e as marcas do processo de esmaltação. Lembro que, do ponto de vista arqueológico, esta diferenciação é facilitada pelo contexto no qual estas louças são encontradas.

No material utilizado para a fabricação você também encontrou diferenças?
Sim. Temos de ter em mente, ao estudarmos um sistema de fábrica de louças brancas em faiança fina no Brasil, como a que estudei para São Paulo (a Fábrica de Louças Santa Catharina posterior IRFM – São Paulo), que não existe criação a partir do nada, mas, por outro lado, reduzir a cadeia de produção e as tecnologia usadas aqui a meras cópias de louças européias, é uma explicação demasiado simplista. Deste modo, nossas louças brancas sofrem, claro, inspiração de outras fabricações já estruturadas, mas possuímos especificidades e originalidades. Para a louça branca deste começo de século, somaram-se tecnologias de produção local a tecnologias estrangeiras, a partir de um corpo de trabalhadores tanto brasileiros como europeus, e até asiáticos, cada um trazendo sua contribuição. Os roletes, por exemplo, finas “tiras” de argila enroladas são muito característicos de produções cerâmicas no país, e foram muito encontrados no sítio arqueológico que estudei, especialmente ligados ao processo de fabricação e restauração das caixas refratárias (onde são postas as louças para ir para o forno). Por outro lado, foram encontradas trempes, pequenos pedestais com três pontas, tradicionais e recorrentes tanto em fábricas na Europa como em outros locais do mundo.

A que você atribuiria essa diferença? Porque mesmo em um período em que se copiava a cultura européia, o Brasil desenvolveu um aspecto tão pessoal?
Temos de ter em vista que a noção de “cópia” é um pouco mais complexa do que supomos geralmente. Primeiramente, a idéia de “ser Europa” ou “europeizar hábitos” era uma postura de parte das elites, no caso de São Paulo, e que apesar de bolarem políticas para tal, isso não quer dizer que famílias operárias quisessem adquirir hábitos de uma suposta “cultura européia”. As fábricas de louça brasileira tiveram de dialogar com os projetos de modernidade, do começo do século XX, de seus proprietários, imersos em contextos que visavam muitas vezes normatizações a fim de combater, por exemplo, em prol de uma idéia de “moderno”, aquilo que seria considerado tradicional, colonial, atrasado, rural, e com os consumidores destes artefatos, também grupos como operários, mamelucos, imigrantes, ex-escravos e demais populações que moravam agora na cidade de São Paulo, e que ainda sorviam caldos em tigelas e comiam em pratos sem o auxílio de talheres. O aspecto original desta louça brasileira é resultado de uma somatória de fatores e da dialógica que se montou entre produção e consumo; afinal, havia aqui uma demanda específica por louças e por padrões decorativos que dialogavam com a conjuntura na qual estavam imersas e que não era, obviamente, a européia.

Como surgiu o interesse por pesquisar esse tipo de produto?
O interesse em pesquisar este tipo de produto veio de minha inquietação em torno da ausência de uma bibliografia sobre a produção de louças brancas nacionais. A louça enquanto artefato arqueológico é um rico material que possibilita inúmeras reflexões em torno de seus usuários e fabricantes, em diferentes épocas. Enquanto objeto de estudo da Arqueologia Histórica, uma arqueologia mais focada em estudos de sítios arqueológicos cuja ocupação recua até a chegada dos europeus à América, a louça branca recorre bastante enquanto objeto indicador de status sócio-econômico e enquanto indicador cronológico. Busquei questionar estes paradigmas, estudando a louça branca brasileira, uma vez que a mesma foi produzida e consumida em larga escala no século XX, não sendo, portanto, um produto do século XIX, e seu barateamento, com a produção nacional, possibilitou que uma maior parcela da população acessasse este produto. Deste modo, a não identificação desta louça como brasileira nos sítios arqueológicos, mas como inglesa, por exemplo, poderia fazer com que a interpretação construída em torno da história das pessoas que ali moraram e as utilizaram, gerando aquele refugo que compõe o sítio arqueológico, recuasse no tempo, além de transformar “operários” em “barões”, uma vez que a louça, neste momento, passa a ser consumida por muitos grupos e a presença “física” das fábricas, pelo menos em São Paulo, possibilitou diferentes formas de acesso a elas que não necessariamente pela compra em dinheiro.

Tendo em vista uma postura teórica pós-colonialista em minha formação, busquei, de modo amplo, “descolonizar imaginários”, como disse um dos grandes intelectuais do século XX, Edward Said, também na arqueologia, questionando a supervalorização da louça inglesa em nossos olhares, sempre ressaltando o estrangeiro como melhor; quis questionar este paradigma de modernidade onde nos encaramos, ou somos vistos, como uma “cópia” de algo “original”, e, portanto, se cópia, mal feitos, porque nunca iguais ao original, sendo este original, em geral, a Europa. Assim, seria interessante buscar paradigmas latino-americanos que questionassem visões eurocêntricas como estas, implodindo conceitos de centro e periferia; a análise das louças brancas em faiança fina do sítio Petybon permitiu estas inferências.

Por fim, meu interesse surgiu também por uma crítica a uma visão bastante tradicional de que a cidade não possui potencial arqueológico, por estar “destruída” ou “antropizada”. Esta é uma visão errônea; a cidade possui um enorme potencial arqueológico, estudado pela Arqueologia Urbana e pela Arqueologia Histórica, e cada pequena parte sua é passível de leituras arqueológicas: tudo na cidade é antrópico e antropizado, e é isto o que a arqueologia estuda, basta que o pesquisador calibre seu olhar. A descoberta do sítio arqueológico Petybon trouxe a tona novamente esta discussão, pois no meio da zona metropolitana de São Paulo, no bairro da Lapa, estavam as toneladas de louças brancas compondo aterros e bolsões de descarte, junto aos alicerces enterrados de uma das primeiras fábricas de louça branca do país, de 1913.

Qual a importância de se estudar esse tipo de aspecto?
Estudar a originalidade das louças em faiança fina brasileira permitiu questionar discursos de uma São Paulo, do início do século XX, que se apresentava como moderna, urbanizada, “europeizada”, elitista, e que deixava de fora muitos de seus principais componentes, inclusive elaborando políticas que visavam apagar não era considerado moderno, ou seja, hábitos tidos como rurais, coloniais, etc. A partir disto a análise das louças brasileiras do sítio arqueológico Petybon, refletindo sobre práticas e hábitos, possibilitou o questionamento de teses baseadas em abordagens que pressupõem uma “ideologia dominante”, já que os grupos que não as “elites” também possuíam traços culturais próprios, não sendo/querendo ser “cópia” de uma elite ou “desvio” de um modelo original, que pressupõe uma visão rígida de cultura. Abordar tais aspectos foi questionar os paradigmas da modernidade latino-americana através da cultura material, o que é uma contribuição eminentemente arqueológica. Estudar a história da fabricação de louça branca no país foi também adentrar num assunto pouquíssimo estudado e trazer à tona questões relacionadas a setores da população que antes não consumiam louça branca, assim como seus hábitos culturais, práticas identitárias e mecanismos de ação e resistência, já que o modo como nos alimentamos é bastante devedor da conjuntura da qual viemos e na qual estamos imersos.

Deste modo, estudando as louças brancas de um sítio arqueológico específico em São Paulo busquei mostrar como elas dialogam com as concepções de modernidade vigentes na cidade de São Paulo no começo do século XX. A fábrica de louça Santa Catharina foi intermediária entre a intenção de produção das elites, os usos pretendidos dos objetos e as condições de consumo, os usos reais dos mesmos. A permanência das tigelas durante o período parece apontar para manutenção de identidades culturais de uma população com costumes rurais na cidade, apontando para a fragilidade da dicotomia campo-cidade. Foi possível ainda perceber como os discursos normativos e disciplinares de modernidade dialogam com o que a Arqueologia do século XIX e XX encontra na cultura material dos sítios arqueológicos. Tudo a partir da análise dos artefatos em louça branca.

Comente um pouco a diferença entre a pesquisa arqueológica recente e a da que estuda séculos distantes?
Em primeiro lugar, é importante dizer que a Arqueologia, se possui alguma data que determine o início de um escopo temporal que delimite sua área de atuação, como o surgimento do homem, não possui uma data final, ou seja, não existe “isto é arqueológico porque é de 1600 e isto não é arqueológico porque é de 1900”. Uma rodela de sandália de borracha feita por uma criança para servir de roda para um carrinho de lata de sardinha no sertão do nordeste em 2008, como já observei em diversos sítios arqueológicos históricos na região, é tão importante, relevante, e passível de uma reflexão como uma louça portuguesa do século XVII ou uma cerâmica marajoara. O que está em questão é a concepção de tempo intrínseca ao pesquisador que olha a cultura material e que a classifica como “muito moderna” ou “muito antiga”; não deveríamos pensar no que é recente ou não, mas sim no que é “arqueológico”, epistemologicamente.

Se a arqueologia estuda as expressões materiais da cultura, uma sandália de borracha é um artefato; se ela estuda o passado, um segundo atrás pode ser considerado passado. Assim como na história contemporânea, existe um certo receio, ainda, de realizar arqueologia de tempos mais recentes, como o século XX, talvez por um estranhamento, por um afastamento de temáticas de um período que envolve muitas questões de conflito, talvez por uma dificuldade de distanciamento daquela cultura material, pois, afinal, somos muito ligados a ela e nos enxergar sobre o olhar crítico de uma área científica é bastante difícil – muito mais do que nos pautarmos apenas no “outro cultural”. Mas isto está mudando, em todo o mundo, e temos de dialogar com a produção científica latino-americana e do restante do globo. Uma arqueologia do passado contemporâneo ou uma arqueologia do presente possibilita um diálogo não só mais intenso com as pessoas que utilizaram aqueles artefatos, mas com a riqueza do conhecimento êmico nas interpretações, possibilitando a geração de narrativas alternativas que dêem espaço a visões diferenciadas do passado que são tão “verdade” quanto aquelas geradas pelo arqueólogo, questionando duramente as supostas “objetividades” e “neutralidades” das pesquisas científicas. Inúmeras pesquisas, atualmente, seguem esta linha, como a arqueologia das ditaduras e dos regimes totalitários.

Ao estudar o começo do século XX, pude entrar de alguma forma num universo ainda pouco explorado, o do cotidiano opressor do sistema de fábrica, e as ações e re-ações dos trabalhadores que ali conviviam, assim como dialogar com uma sociedade tão diversa como a da São Paulo que se formava ali e da qual somos diretamente devedores atualmente. Uma arqueologia de um mundo recente lida com questões ainda muito vivas em nossas memórias como sistemas opressores de trabalho, guerras, conflitos, holocaustos, migrações e segregações ou marginalizações, processos dos quais somos, de um modo ou de outro, “filhos”, querendo ou não. É uma grande responsabilidade tentar trazer à tona problemáticas de exclusão, por exemplo, seja trabalhando com operários seja com sertanejos, mostrando modos de vida, especificidades, práticas e hábitos culturais de populações que muitas vezes não tem voz ou não aparecem nos registros escritos que tendem muito a ser “elitistas” do ponto de vista de uma elite letrada, ainda mais num país como o Brasil. De qualquer modo, acho que a Arqueologia deveria ser pensada para além de termos de “tempo”, pelo menos aquele tempo linear, e rumar a um tempo mais rizomático, na concepção deleuziana. Na verdade, a arqueologia dos séculos XX e XXI produzidos nestes séculos, mas lembro um pouco a máxima de Marc Bloch para a História e acredito que toda a arqueologia deveria ser vista como uma arqueologia do presente, pois convivemos contemporaneamente com o sítio arqueológico e sua cultura material, e tanto as questões que levamos para os artefatos como as formas de respondê-las são do nosso presente.

só vemos aquilo para o qual nos preparamos para ver

trecho de APRESENTAÇÃO (OU POR UMA ARQUEOLOGIA URBANA ANTRÓPICA)
de: LOUÇA BRANCA PARA A PAULICÉIA: ARQUEOLOGIA HISTÓRICA DA FÁBRICA DE LOUÇAS SANTA CATHARINA / IRFM - SÃO PAULO E A PRODUÇÃO DA FAIANÇA FINA NACIONAL (1913 - 1937)
por: Rafael de Abreu e Souza
Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Arqueologia do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo, para obtenção do título de Mestre em Arqueologia.
São Paulo, 2010

disponível em: http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/71/71131/tde-24032010-170351

Pina-Cabral percebeu, em suas pesquisas, que havia algo na cerâmica popular portuguesa que ninguém percebera antes e que não constava em registros escritos nem em qualquer outra fonte: refere-se à vasta tradição local da indústria cerâmica de artefatos em forma de falo, em Portugal (1993). O antropólogo notou que muitos dos aspectos da cultura popular portuguesa não eram vistos pelos olhos dos pesquisadores e que este tipo de cerâmica foi ignorada, mesmo existindo há muito tempo.

São os olhos dos cientistas que vêem apenas aquilo que querem ver, já nos mostrava os Annales desde o final dos anos 1920 (BURKE 1986). Para a arqueologia, Gallay (2002) afirmou que “só vemos aquilo para o qual nos preparamos para ver”. Se não estamos, portanto, preparados para a louça brasileira, não a vemos. Fica a dúvida se a faiança fina nacional realmente não estava no sítio ou não foi diagnosticada por não estarmos preparados. (...)

Os questionamentos de Pina-Cabral nortearam algumas das questões da presente pesquisa em torno da louça em faiança fina, mais barata, mais popular, de fabricação brasileira, que está nos sítios arqueológicos, mas que é pouco estudada e pouco valorizada.

(...) Tenho a impressão, às vezes, de que há uma supervalorização da louça inglesa em detrimento das cerâmicas locais nas abordagens da Arqueologia Histórica (...). Há que se ter em mente que objetos e sujeitos históricos emergem de construções discursivas (RAGO 2004). Por isso este trabalho é uma proposta de mudança de escalas de observação, a fim de sugerir mudanças em interpretações (SASSAMAN 2005: 335).

No universo das cerâmicas de produção brasileira, ou de produção local, o que é, afinal, essa louça branca? O que é este artefato tão cotidiano, relativamente comum, que faz parte de nosso dia a dia e ao qual não prestamos muita atenção? (...) Para Orser, a análise destes artefatos “banais” propiciaria nossa entrada em um mundo fluido de significados, desafiaria interpretações mais simplificadas (2005). (...) A louça brasileira, banal e corriqueira nos sítios arqueológicos, sob outro prisma, pode mudar a interpretação sobre o contexto do sítio, sua cronologia e os hábitos e características daqueles que as utilizaram. Exemplo disso é a própria porcelana brasileira, muitas vezes descrita como um objeto não identificado, ou a faiança fina nacional que, apesar de difícil identificação, é freqüentemente tomada como estrangeira.

Cerâmica, a História escrita em Barro


A cerâmica data dos primórdios dos tempos, quando o homem começou a utilizar o barro endurecido para produzir utilitários domésticos. Ela é a mais antiga de todas as indústrias, que substituiu a pedra trabalhada, objetos domésticos de madeira e vasilhas feitas de frutos ou cascas de árvore. Os estudos realizados com esses materiais coletados têm servido para contar a história da humanidade no tempo e no espaço, além de analisar as culturas que constituem verdadeiros monumentos da arqueologia, principalmente amazônicos, a exemplo da Marajó, rica em detalhes e morfologia; a extravagante e caprichosa cerâmica Maracá; a singela e trabalhada de Cunani e a mais bela, decorada e complexa de todas, a depositada à flor do solo em Santarém, no médio Rio Amazonas.


Todo este rico material da arte oleira constitui o mais importante acervo arqueológico da planície amazônica e guarda segredos de seus artesões em belas peças cronologicamente classificadas como proto-históricas, bastante decoradas, contendo pintura e desenhos, ornamentadas em relevo, muitas delas representando figuras humanas ou de animais. No terreno da arqueologia, não havia naquela época, nem atualmente, tribo que dominasse dons tão refinados da cerâmica produzida em qualidade, habilidade e perfeição por esses quatro apontados.

As tribos ceramistas brasileiras foram muitas, mas as de cerâmica artística bem poucas: só esses quatro grupos étnicos se dedicaram à cerâmica como arte. Na Amazônia, a mais interessante delas é a de Pascoal, uma minúscula ilha artificial construída no lago Arari, no centro da Ilha de Marajó, espécie de sentinela do estuário dos majestosos rios Amazonas e Pará. Nem Colombo nem Cabral ainda tinham chegado ao Novo Mundo quando diversas tribos se fixaram nestas áreas da Amazônia. Foi essa região de águas e florestas tropicais que recebeu povos migradores que portavam o dom da arte oleira vinda de terras distantes e que desfrutavam de uma cultura superlativa que os distinguiam dos demais indígenas brasileiros.


Singrando rios ou caminhando pelas matas e alagados, esses povos chegaram impelidos pela lei da sobrevivência até a Ilha de Marajó, onde se localizaram e produziram as mais belas peças arqueológicas brasileiras. Outro grupo fixou-se na região do Rio Tapajós, que abrigou a cultura tapajônica, a mais significativa cerâmica do país por sua modelagem marcante que lembra o estilo barroco e pela beleza de peças zoomorfas de feições ornamentais muito análogas à antiga arte chinesa. Uma outra etnia subiu a costa do norte do

Amazonas, indo situar-se no Rio Cunani, enquanto os demais artesões espraiaram-se pelo Rio Maracá, outro afluente do lado amapaense do Rio Amazonas, que não fazem parte das tradições ceramistas da Bacia Amazônica, sendo classificada como fase não filiada, mas hábeis oleiros por suas urnas funerárias de tipos tubulares, zoomorfas e antropomorfas.


Os quatro primeiros grupos foram os criadores da cerâmica oleira amazônica preocupada com a beleza, cuja evolução, capacidade sensorial, vibração com a natureza, expressão de sentimentos e emoções através da arte refletem sua criatividade. Na cerâmica, eles perenizaram as profundas impressões vindas do inconsciente, impregnadas pela bela e exótica natureza da Amazônia, que abrigou as culturas Marajoara e Tapajônica ou Santarém, as mais expressivas das Américas. A Arqueologia evita classificar os vestígios culturais encontrados às margens do Rio Tapajós, próximas à cidade de Santarém, Estado do Pará, como Tapajônicos, considera-os parte de um complexo cultural denominado Santarém ou Santareno, cuja cerâmica é representada por figuras humanas ou de animais, com ornamentos em relevo, pinturas e desenhos.

Apesar de não desfrutar do mesmo interesse dedicado à cultura Marajoara, por parte dos arqueólogos, a cerâmica Santarém é uma das mais bonitas da pré-história brasileira, provavelmente a mais antiga da Amazônia, resistindo a qualquer aculturamento ou influência estrangeira. Nela, evidencia-se a predileção pela fauna regional e pelo realismo animalista que a diferencia da cerâmica Marajoara, além de não possuir a tradição ceramista das urnas funerárias, pois seus mortos não eram enterrados: tinham os ossos moídos e postos no vinho, para serem bebidos pela tribo.


Outra diferença é a inexistência de estudos dividindo em fases culturais os povos que habitavam a região próxima à junção dos rios Tapajós e Amazonas, que dificulta conhecê-la melhor, principalmente suas controvertidas origens. É aí que está a maior curiosidade dessa bela cultura, visto a nomenclatura da cerâmica ser derivada dos índios Tapaius ou Tapajós, que nem possuíam tradição oleira artística.


A arqueóloga norte-americana Anna Roosevelt, professora da Universidade de Illinois, em Chicago, cujo trabalho revolucionou o conhecimento da pré-história amazônica, diz que está prestes a desvendar um dos maiores mistérios da Amazônia pré-cabralina, que é a identidade dos índios da cultura Santarém, apesar de parte do acervo encontra-se disperso pelo mundo inteiro e terem sido destruídos os sítios arqueológicos onde as escavações deveriam acontecer. Ela afirma que os povos que produziram as bonitas cerâmicas decoradas de Santarém, na pré-história, não são os mesmos Tapajós que habitavam a região cortada pelo rio do mesmo nome e que eles foram apenas dominadores desses hábeis artesãos que se desenvolveram na região do Médio Rio Amazonas até o ano 1.200 da Era Cristã. Em período que antecedeu à descoberta do Brasil, algumas das civilizações que habitaram a região amazônica têm origens que remontam ao ano 980 antes de Cristo, mas a arquóloga Anna Roosevelt afirma que a cerâmica do Pará tem cerca de oito mil anos e não quatro mil, como se acreditava até então.

Garante ainda que a cerâmica feita pelos povos que habitaram a Ilha de Marajó é originária da própria região e não de culturas colombianas andinas, conforme se acreditou durante muito tempo.


Outros pesquisadores, respaldados em descobertas arqueológicas, acreditam que bem antes de Orellana haver visitado os rios Amazonas e Tapajós, um povo dotado de avançada cultura e hábil na arte oleira habitava aquelas paragens. Esse povo dócil e criativo, segundo alguns historiadores, era supostamente descendente de Maias ou Incas, dado a semelhança de sua cerâmica e a preferência que tinha pelo cultivo do milho, inclusive para fabricação de bebidas, enquanto que outras tribos da região usavam comumente a mandioca.

Há quem afirme que os oleiros viveram na Ilha de Marajó até o ano 1.350 d.C., quando entraram culturalmente em processo de extinção. Os pesquisadores falam que ali existiram diferentes culturas, mas a que mais se sobressaiu foi a Marajoara, aquela que se destacou entre as cinco fases classificadas pelos arqueólogos: Ananatuba, Mangueiras, Formiga, Marajoara e Aruã. A fase Marajoara (400 a.C a 1.650 d.C.) é marcada por uma cerâmica altamente elaborada, cujos artesões também tornaram-se conhecidos por suas obras de engenharias executadas em terrenos alagados da ilha, criando elevações denominadas tesos ou sambaquis, em cima das quais construíram casas, cemitérios e oficinas de cerâmica. Esses aterros artificiais, em alguns casos, chegavam a atingir até duzentos metros de comprimento por 30 metros de largura e dez metros de altura. Os Marajoaras, que desapareceram em 1.350 d.C, cerca de um século e meio antes do descobrimento do Brasil, criaram e desenvolveram a técnica e a excisão (relevo) em suas peças cerâmicas, tanto para uso doméstico como ritualístico, sobressaindo entre elas as aplicadas com desenhos altamente elaborados e sofisticados, como tangas, urnas funerárias, vasos e estatuetas.


Já a cerâmica Maracá foi descoberta por Ferreira Pena, um dos fundadores do Museu Emílio Goeldi, num afluente do Rio Maracá na região da serra de Laranjal do Jari, no Amapá, em 1871. Foram urnas funerárias zoomórficas, antropozoomórficas e tubulares, quase todas encontradas com ossos ou fragmentos. As urnas não estavam enterradas e sim dispostas em certa ordem sobre o solo das grutas, com algumas pintadas e decoradas e outras destruídas por animais ou por raízes de árvores. Ferreira Pena diz que a origem dessa cerâmica é dos Caraíbas, enquanto Ladislau Neto afirma que ela descende de Marajoaras.

Certa feita, porém, os Tapaiús (mais tarde chamados Tapajós), tribo da nação Tapuiuçú, composta por bravos guerreiros e hábeis atiradores de flechas envenenadas, investiram contra esse misterioso povo ceramista e o dominou, tomando posse de suas terras. Dizem os estudiosos, que os Tapaiús afogavam as mulheres adúlteras e mumificavam seus parentes ilustres, mas não eram canibais e poupavam seus prisioneiros, deles aprendendo a arte de trabalhar com a argila cozida, tornando-se também oleiros.

A herança cultural do grupo que ali se fixou há cerca de mil anos antes de Cristo, após a conquista da Amazônia pelos portugueses, praticamente desapareceu até o século XIX, quando ela foi redescoberta e espalhada pelo mundo, principalmente em museus e mãos de colecionadores particulares. Esse legado pré-colombiano das margens do Rio Tapajós, na região do Médio Amazonas, contudo, se destaca pela presença de cariátides, que são figuras humanas que apóiam a parte superior do vaso, além de gargalos, ídolos e pratos. Sua cerâmica é tridimensional e trabalha somente com peças pequenas, como cachimbos e estatuetas de formas variadas, mas diferenciadas da Marajoara, pois apresentam maior realismo e reproduzem mais fielmente os seres humanos ou animais. Por outro lado, a cerâmica Santarena é mais refinada, decorada com elementos em relevo, que perdurou até a chegada dos lusitanos, produção e peculiaridades culturais desaparecidas por volta do século XVII.


Mas a peça cerâmica mais delicada e perfeita já encontrada na Amazônia foi sem dúvida alguma a tanga marajoara, objeto cultural de culto totêmico, uma utilidade feminina estética presumidamente para ser usada em cerimoniais religiosos, o que leva a crer que as mulheres desta tribo participavam de rituais, possivelmente no período do matriarcado interposto pela culturas andinas anteriores a da fase cacicazo. A beleza desta peça, usada possivelmente por sacerdotisas, revestida de uma mística, exercendo poder e fascinação sobre os deuses e homens, transcendia a questão do pudor, que não existia entre estes grupos. Na Índia, a tanga também era triangular, utilizada como oferenda a Ione, a deusa da Maternidade, enquanto que na Colômbia foram encontradas gravuras de tangas rudimentares em oferenda a Banchue, a Mãe dos Homens.

A cerâmica de Marajó, segundo alguns arqueologistas, procede da península de Iucatán, na América Central, enquanto a de Santarém se aproximava de certos modelos Maias. Já a de Cunani se assemelha às das tribos guaranis, que se acredita terem tido contato com os oleiros da região andina da Bolívia. A presença desta bela cerâmica, que os arqueólogos conseguiram salvar, revela não apenas o talento criador desses povos aborígenes, como documenta a sua inteligência motivada por símbolos indecifráveis e por sua superioridade social para a época.


Toda essa cerâmica produzida nestes três centros arqueológicos (Marajó, Amapá e Santarém) revelam sensíveis qualidades de sentimento artístico, dignos até hoje de admiração. A argila que se transformava em panelas, vestimentas, cachimbo, maracá ou outros objetos, não traduzia apenas o estado de espírito do oleiro, o sentimento isolado do artesão, mas o da nação a que pertencia. Além do artefato doméstico, revelador do lar, as peças decoradas revelam o estado religioso do modelador, seu folclore e o seu modo de caçar, pescar, navegar e lutar.


fonte: http://www.amazonview.com.br/noticia.php?cod=1504

Cerâmicas de 9 mil anos são encontradas no Marrocos


NADOR, Marrocos (AFP) — Recipientes de cerâmica, que seriam os mais antigos fabricados no Marrocos, foram descobertos cerca de 50 km ao sul de Nador (norte) por arqueólogos marroquinos e alemães, informou o governo local nesta quarta-feira.

A descoberta aconteceu no sítio de Hassi Ouenzga, em Saka, área em que viveram populações neolíticas há 9.000 anos, informou a delegação provincial da Cultura.

Os pesquisadores pertencem ao Instituto Nacional de Ciências da Arqueologia e do Patrimônio (Insap, marroquino) e ao Instituto Alemão de Arqueologia.

Segundo esses especialistas, dirigidos por Abdeslam Mikdad e Josef Eiwanger, os recipientes de Hassi Ouenzga são 2.000 anos mais remotos do que os mais antigos até hoje encontrados no Marrocos e no conjunto dos países do Magreb.

As populações instaladas nesse local deixaram vestígios de diferentes fases do Neolítico, acrescentou a mesma fonte. O objeto em cerâmica mais recente remontaria a 6.000 anos antes da nossa era.

A decoberta de sinais da fabricação de cerâmica desde essa época pode modificar, profundamente, a percepção que os cientistas têm dessas sociedades do início do Neolítico no Magreb, destacou a nota, lembrando que a cerâmica tinha uma importância social e econômica considerável, porque facilitava o comércio entre as comunidades.

A fabricação de cerâmicas também foi testemunha da mudança nos costumes culinários, além de facilitar a conservação de água. Após o desenvolvimento da agricultura e da domesticação de algumas espécies de animais, como bois e cabras, teve papel primordial na evolução socioeconômica das populações prehistóricas.

A equipe de cientistas do Programa do Riff Oriental (montanhas do norte do Marrocos) começou seus trabalhos em 1994.


fonte: http://www.google.com/hostednews/afp/article/ALeqM5hsrbWpaFODBIeZvF3YR3Ksg0Fyzw

sites de louça em sítios arqueológicos


Há alguns sites sobre acervo de louça em sítios arqueológicos bem legais de se visitar, não só pelas peças, mas também pelas explicações dos tipos de decoração, material (pasta) de que são feitas as cerâmicas, etc. Eis alguns deles:


- Laboratório de Arqueologia da Universidade Federal de Pernambuco
http://www.magmarqueologia.pro.br/Faianca.htm


Faiança Azul e Amarelo


Faiança Azul, Verde e Amarelo


- IPHAN - Catálogo de Cerâmicas 2007
http://portal.iphan.gov.br/catalogo_iphan/pecas.htm


whieldon ware


aranhão


- Florida Museum of Natural History - Historical Archaeology
http://www.flmnh.ufl.edu/histarch/gallery_types/


Wormy finger painted is also known as cabling and worming


faenza polychrome

PF investiga comércio ilegal de peças arqueológicas


Material do século 17 era vendido em um site e conteúdo já está fora do ar. Universidade Federal de Pernambuco enviou ofício ao MP e à PF pedindo providências.

http://g1.globo.com/Noticias/Brasil/0,,MUL581380-5598,00.html

A Polícia Federal (PF) investiga o comércio ilegal, pela internet, de peças arqueológicas encontradas em Pernambuco. São moedas, fragmentos de louças portuguesas, tijolos holandeses e balas de canhão do século 17.


Para oferecer as peças, o vendedor usou no site fotos do catálogo do Laboratório de Arqueologia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), para ilustrar as peças que seriam vendidas.

O site de compras já retirou do ar o material arqueológico e o nome da pessoa que oferecia as peças, "Numismata 3000". Mas, de acordo com uma reportagem publicada no Jornal do Commercio, algumas peças chegaram a ser vendidas por mais de R$ 200,00.



O coordenador do laboratório da UFPE, Marcos Albuquerque, enviou ofício ao Ministério Público e à Polícia Federal, pedindo providências. “Isso tem que ser apurado não só pelo bem do laboratório, mas pelo bem nacional. Afinal de contas, estão sendo comercializadas peças que são próprias da União, ou seja, é considerado crime”, disse.

A PF vai rastear o site para saber quem é a pessoa que colocou as peças à venda. “Essas peças são protegidas e ficam sob a guarda do Poder Público. Portanto, ninguém pode explorar ou comercializar esse tipo de monumento arqueológico. Assim que a PF receber esta denúncia, tudo vai ser verificado”, informou o assessor Giovanni Santoro.



O coordenador do Laboratório de Arqueologia da UFPE informou que as peças exibidas na internet não foram roubadas da instituição. A punição prevista em lei para quem vende objetos arqueológicos pode chegar a dois anos de prisão.

Obra da CPTM revela sítio arqueológico


Obras de modernização da Linha F da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) revelaram um sítio arqueológico onde já foram encontrados objetos com mais de 300 anos.

http://g1.globo.com/Noticias/SaoPaulo/0,,MUL47093-5605,00.html



Pode parecer, mas não é um terreno abandonado cheio de capim. É um solo fértil em história. O caminho da ferrovia na Zona Leste, altura da estação de São Miguel Paulista, leva à herança de nossos costumes.

A vegetação cuidou de cobrir restos do passado, descobertos por arqueólogos. Pequenos pedaços de potes, pratos, tigelas, garrafas e moedas estavam debaixo da terra.

Em um ponto foram encontradas as primeiras peças arqueológicas dos séculos XVIII e XIX. Mas, segundo os pesquisadores, pode existir material mais antigo, porque ali viviam jesuítas e índios em um aldeia que ficava entre o Rio Tietê, que era do outro lado do que é hoje uma ferrovia, e a Igreja de São Miguel.

A descoberta arqueológica foi feita durante uma pesquisa da CPTM para as obras de modernização da Linha F. “A primeira providência, nós cercamos, mandei um projeto que ninguém pode mexer. A CPTM vai ter que preservar isso pelo resto da vida, até que se retirem os fragmentos históricos”, disse o arquiteto da CPTM José Heitor Gurgel.

Os arqueólogos analisam os cacos de barro, de porcelana, de vidro e pedras. Os primeiros estudos revelam alguns objetos usados no dia-a-dia da aldeia chamada de El Rei de São Miguel de Ururaí.

Família descobre vestígios históricos no quintal de casa


Descoberta foi feita acidentalmente, por causa dos cuidados com uma horta.
Área corresponde ao antigo Quilombo do Jabaquara, em Santos, litoral de SP.

http://g1.globo.com/Noticias/SaoPaulo/0,,MUL737625-5605,00.html

Uma família de Santos, a 72 km da capital, descobriu acidentalmente, no quintal de casa, peças que podem ser consideradas vestígios históricos. A cabeleireira Claudia Teixeira de Oliveira havia pedido a seu marido Cláudio que plantasse uma horta, e assim encontraram os itens.



"Eu estava pegando um pouco de terra para fazer uma plantação e aí foi que eu encontre uns fragmentos de ossos", conta Cláudio. De acordo com o casal, que vive no bairro do Jabaquara com seus três filhos, há quatro meses já haviam sido encontrados pedaços de louças e utensílios domésticos, mas só na última sexta-feira (23), quando encontraram uma mandíbula humana, entraram em contato com o museu arqueológico da cidade.

Carla guardou durante esse período as peças de louça e fragmentos de ossos de animais. "Liguei para o museu e os rapazes disseram que ia vir o arqueólogo e o historiador. Eles vieram e disseram que realmente fazia parte da história de Santos."



Segundo o historiador Valdir Rueda, a área que hoje é o bairro do Jabaquara, foi lugar do antigo Quilombo do Jabaquara entre 1.871 e 1888, e pertencia ao abolicionista Quintino de Lacerda. "A probabilidade de encontrar material nessa região é muito grande, por isso fizemos o mapa arqueológico de Santos. Agora não vai nos surpreender o encontro de todo tipo de material."



Os achados foram catalogados e fazem parte agora do acervo do Centro Regional de Pesquisas Arqueológicas. "São artefatos de diferentes épocas, feitos de diferentes formas, cores e fábricas. Isso mostra que realmente aquele local foi habitado por sociedades diferentes", afirma o arqueólogo Manoel Gonzalez.



A horta de Carla vai ter que esperar um pouco mais. Os pesquisadores farão escavações no terreno e esperam novas descobertas. "Eu fiquei mesmo feliz de saber que a gente estava morando em cima de uma coisa tão importante. Tem que ter um museu na cidade, tem que ter as peças. Senão, como é que vai contar a história se não tiver as peças?", diz ela.

Arqueólogos encontram peças do século XVII na sede do TSE no Rio


Durante os trabalhos de escavação e restauração do edifício da antiga sede do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), no Rio de Janeiro, arqueólogos encontraram fragmentos de cerâmica e de utensílios domésticos do século XVII.

As peças descobertas dão detalhes da história do Brasil monárquico e complementam as informações já existentes do dia-a-dia da sociedade carioca da época. O acervo será exposto a partir desta quinta-feira, às 20h30m, com a inauguração do Centro Cultural da Justiça Eleitoral (CCJE), que funciona no Centro.

A equipe de arqueólogos descobriu, no subsolo do edifício centenário, louças com brasão da Família Real; cerâmica neo-brasileira (confeccionada por escravos africanos) e fragmentos de cerâmica colônia e faiança portuguesa (cerâmica de barro esmaltado ou vidrado na superfície). Todo o material recolhido, após a higienização, classificação e catalogação, será encaminhado à reserva técnica do Instituto de Arqueologia Brasileira (IAB).

Parte das peças foi separada para a exposição que será aberta no dia da inauguração do Centro.

http://www.cbarqueol.org.br/inside.php?area=vernoticias&id=155