fonte: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0101-47142012000200002&script=sci_arttext
Centenário da Fábrica de Louças Santa Catharina
Há pouco mais de 2 meses, fez 100 anos a primeira experiência de fabricação de louça de pó de pedra de uma das maiores e principais fábricas de louça do Brasil, do período pioneiro desta indústria em nosso país. E o que foi feito para comemorar ou relembrar data tão importante? NADA!
Em 14/11/1913 Romeu Ranzini (fundador da fábrica), Giuseppe Zappi (técnico ceramista) e Giovanni Miniati (decorador) assinaram coletivamente este pires decorado à mão, testemunho desta primeira experiência bem sucedida da fábrica da Água Branca.
[fonte: PILEGGI, Aristides. Cerâmica no Brasil e no Mundo, ed. Martins Fontes, São Paulo, 1958]
Encerro esta postagem com a foto abaixo, de uma malga que apresenta uma pintura com alguns pontos de similaridade com o pires acima, e que está carimbada com uma marca que se acredita ser das primeiras usadas.
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| malga média, de consumo individual Fábrica de Louças Santa Catharina São Paulo - SP louça de pó de pedra decoração à mão livre 1913+ coleção site Porcelana Brasil |
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palavras-chave: Santa Catharina
prato de jantar - Fábrica de Louças Santa Catharina

Fábrica de Louças Santa Catharina
São Paulo - SP
louça de pó de pedra
decoração pintada à mão livre
1929+
cortesia coleção Luiz Carlos Cunha
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palavras-chave: Santa Catharina
gomil e bacia - Fábrica de Louças Santa Catharina
malga (tigela) grande
Fábrica de Louças Santa Catharina
São Paulo - SP
louça de pó de pedra
decoração pintada à mão livre
maio 1922 / agosto 1931
cortesia coleção Washington Marcondes
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palavras-chave: Santa Catharina
malga grande - Fábrica de Louças Santa Catharina

malga (tigela) grande
Fábrica de Louças Santa Catharina
São Paulo - SPlouça de pó de pedra
decoração pintada à mão livre
maio 1922 / agosto 1931
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palavras-chave: Santa Catharina
Malgas (2a. parte)
Este post é continuação de um anterior, "Malgas (1a. parte)". Se você o perdeu, acesse aqui para vê-lo.
Eu pensei que com 2 postagens eu conseguiria fazer um panorama da produção de malgas no Brasil na primeira metade do séc. XX, mas quando estava separando as imagens para este segundo post, mal havia começado já havia 15 fotos! Então achei melhor parar, e aceitar que haverá um terceiro post. Aqui serão mostradas 10 destas malgas.
Mais uma vez peço perdão pela (falta de) qualidade das fotos que foram obtidas em sites de leilão. Vamos às malgas:
malga grande
Marca ilegível | provavelmente do estado de SP
louça de pó de pedra | decoração à mão livre
coleção Fabiano Lopes de Paula
malgas pequenas, de consumo individual
laterais:
Fábrica de Louças Santa Carolina | Mogi das Cruzes - SP
louça de pó de pedra | decoração com estanhola
1925 / ?
centro:
João Evaristo Trevisan & Cia. Ltda. | Curitiba - PR
louça de pó de pedra | decoração com estanhola
? 1945 / 1974+
malga pequena, de consumo individual
Pryor & Cia. - Fábrica de Louça Santa Cruz | Taubaté - SP
louça de pó de pedra | decoração com filetes
? 1926 / 1938
coleção Luís Cláudio Antunes
malga grande
Fábrica de Louças Santa Catharina | São Paulo - SP
louça de pó de pedra | decoração à mão livre
1921+
coleção Washington Marcondes
malga grande
Fábrica de Louças Santa Catharina | São Paulo - SP
louça de pó de pedra | decoração à mão livre
? c. 1915 /1921 ?
coleção Washington Marcondes
malga grande
Cerâmica Santa Terezinha | São Bento do Sul - SC
louça de pó de pedra | decoração com estanhola
? 1941 / 1953
coleção Museu da Oxford S/A
malga grande
Cerâmica Santa Terezinha | São Bento do Sul - SC
louça de pó de pedra | decoração com estanhola
? 1941 / 1953
coleção Museu da Oxford S/A
malga média
Cerâmica Santa Terezinha | São Bento do Sul - SC
louça de pó de pedra | decoração à mão livre
? 1941 / 1953
coleção Museu da Oxford S/A
malga grande
Cerâmica Santa Terezinha | São Bento do Sul - SC
louça de pó de pedra | decoração com estanhola
? 1941 / 1953
coleção Museu da Oxford S/A
malga grande
Fábrica de Louças Cruzeiro | Campo Largo - PR
louça de pó de pedra | decoração com estanhola
1939 / 1954
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palavras-chave: Cruzeiro, ILAR, Santa Catharina, Santa Cruz, Santa Terezinha, Trevisan
Malgas (1a. parte)

malga média, de consumo individual
Fábrica de Louças Santa Catharina São Paulo - SP
louça de pó de pedra decoração à mão livre
coleção site Porcelana Brasil
Há nas formas de louça cerâmica uma que eu tenho imensa simpatia: a MALGA. Aqui no Brasil este termo não é muito utilizado, sendo que quase todas as pessoas usam o termo mais abrangente TIGELA para definir esta peça. Mesmo assim, prefiro usar o termo MALGA, pois além de ser um termo consagrada na Arqueologia Histórica brasileira, ele individualiza esta "tigela" em particular de tantos outros formatos que conhecemos por este nome.
A razão do meu interesse particular por esta peça é que ela sempre foi associada ao consumo popular, e também por ser um formato muito "primitivo", sem grandes sofisticações de design. Talvez seja uma das formas mais próximas às cabaças e cuias feitas com cascas de frutas e sementes pelos povos primitivos, antes destes descobrirem a cerâmica.
Uma outra razão é que até eu começar a me interessar pela pesquisa de louças no Brasil, eu desconhecia este formato. Só me lembro de ter visto uma malga pela primeira vez, este "tigela" com pé, justamente quando comecei a ler bibliografia específica sobre cerâmica antiga.
E a provável razão disto é que no Brasil a malga está associada às fábricas cerâmicas pioneiras, que se instalaram no Paraná e São Paulo, quase sempre fundadas por imigrantes italianos. E estas peças eram fabricadas justamente para estes imigrantes, que tinham na malga uma peça muito versátil, pois na mesma malga onde se toma sopa, se bebe café com leite ou se faz a barba. O operário pobre italiano, por exemplo, parece ter sido um grande consumidor das malgas no período, segundo algumas fontes escritas, como relatos de viajante, e fontes iconográficas. Usavam-na
para os mais variados fins, já que seu design colabora para inseri-las nos mais diversos contextos de uso.

malga média, de consumo individual
Fábrica de Louças São Zacarias Colombo - PR
louça de pó de pedra sem decoração
coleção site Porcelana Brasil
Já aqui no Rio de Janeiro, que foi a capital do país até 1960, o que reinava era a louça mais sofisticada, importada. E a louça de produção nacional, mesmo quando esta ainda era vista apenas para consumo pelas pessoas menos endinheiradas, o formato inexistia, muito provavelmente pois não havia um mercado consumidor acostumado com esta peça.
Hoje em dia é muito incomum encontrar-se malgas em feiras de usados, brechós e antiquários cariocas. Quando aparecem, geralmente são em formato grande, que eram usadas como peça de apoio na cozinha para preparação de alimentos. Além disso, estas malgas normalmente apresentam decoração mais caprichada.
Já em feiras de São Paulo as malgas são bastante comuns, em diversos tamanhos (consta na bibliografia que existiram 13 tamanhos de malgas em produção no Brasil), e não é incomum que a decoração seja inexistente, ou bastante simples.
Atualização em 31/12/2010:
Conforme bem me lembrou a Ivete Ferreira em um comentário neste post, a origem da palavra "malga" provavelmente está ligada aos oleiros de Málaga (Espanha) que em meados do século XVI foram para Portugal trabalhar e ensinar o seu ofício.
Os tradicionais oleiros de portugal fabricavam telhas e ladrilhos de barro vermelho; os espanhóis de Málaga, que fabricavam louça e ladrinho de argila branca (faiança), ficaram conhecidos como "malegueiros".

Malga em faiança de bordo afilado e base de pé anelar com decoração floral a azul. Fabricação não identificado. Possivelmente, Lisboa, segunda metade do século XVIII. Encontrada em escavações no Largo Vitorino Damásio, Lisboa, 2003.
fonte: http://www.igespar.pt/media/uploads/revistaportuguesadearqueologia/9_2/4/19-p.369-400.pdf
A produção dos malegueiros tinha como diferencial da olaria tradicional em terracota, além do uso da argila branca, rica em caulim, queimarem suas peças duas vezes: uma para a aplicação do vidrado, e a segunda para a pintura sobre o vidrado, que é basicamente a técnica que se usa até hoje na produção de louça de faiança fina ou porcelana, sendo que às vezes há 3 ou até mesmo 4 queimas, dependendo da complexidade da decoração.
Atualização em 05/01/2011:
Ivete Ferreira, leitora de Portugal, muito generosamente me enviou fotos de belíssimas malgas antigas de sua coleção, produzidas, segunda a Ivete, no norte daquele país. Eu selecionei as duas abaixo, por terem maior relação com as peças brasileiras apresentadas neste post:

Diãmetro: 24,5 cm; Altura: 13 cm, pintada à mão livre em rica policromia

Diâmetro: 26,5 cm; Altura: 14 cm, decorada com o uso de estanhola
Então, vamos agora às malgas brasileiras!

malga
Fábrica de Louças Evaristo Baggio Curitiba - PR
louça de pó de pedra decoração com estanhola

malga grande
Fábrica de Louças Santa Catharina São Paulo - SP
louça de pó de pedra decoração à mão livre
coleção Washington Marcondes

malga média, de consumo individual
Fábrica de Louças Santa Catharina São Paulo - SP
louça de pó de pedra decoração com filetes
coleção site Porcelana Brasil

malga média
C. S. E. Mauá localização desconhecida, provavelmente Mauá - SP
louça de pó de pedra decoração com estanhola
coleção Washington Marcondes

malga diminuta, do tamanho de uma xícara de café
Fábrica de Louças M.B.L. São Caetano do Sul - SP
louça de pó de pedra decoração com estanhola
coleção site Porcelana Brasil

malga grande
Cia. Paulista de Louças Céramus São Paulo - SP
louça de pó de pedra decoração com estanhola

malga bastante pequena, do tamanho de uma xícara de chá
Louças Cláudia - Cerâmica Matarazzo São Caetano do Sul - SP
louça de pó de pedra sem decoração
coleção site Porcelana Brasil

malga pequena, de consumo individual
Cerâmica Mauá Mauá - SP
louça de pó de pedra decoração com filetes
coleção site Porcelana Brasil

malga média
Cerâmica Itabrasil S ão Caetano do Sul - SP
louça de pó de pedra decoração com decalques e detalhes em ouro
coleção Washington Marcondes

malga grande
Cia. Paulista de Louças Céramus São Paulo - SP
louça de pó de pedra decoração com estanhola
coleção Washington Marcondes

malga grande
Cia. Paulista de Louças Céramus S ão Paulo - SP
louça de pó de pedra decoração à mão livre

malga grande
Cerâmica Aurora Campo Largo - PR
louça de pó de pedra decoração com estanhola

malga grande
Fábrica de Louças Santa Carolina Mogy das Cruzes - SP
louça de pó de pedra decoração com estanhola
coleção Washington Marcondes

malga grande
Fábrica de Louça de Pó de Pedra A.R. & I. Pedreira - SP
louça de pó de pedra decoração com estanhola
coleção Washington Marcondes

malga grande
Fábrica de Louças Santa Cruz Taubaté - SP
louça de pó de pedra sem decoração
coleção site Porcelana Brasil

malga grande
Cia. Paulista de Louças Céramus São Paulo - SP
louça de pó de pedra decoração com estanhola
coleção Washington Marcondes

malga grande
Fábrica de Louças Paulista Mauá - SP
louça de pó de pedra decoração com estampagem e detalhes complementares à mão livre
coleção site Porcelana Brasil

malga grande
Cerâmica Mauá Mauá - SP
louça de pó de pedra decoração com decalques e aerógrafo
coleção site Porcelana Brasil
prato raso - Fábrica de Louças Santa Catharina

prato raso
Fábrica de Louças Santa Catharina
São Paulo - SPlouça de pó de pedra
decoração com carimbos e detalhes à mão livre
setembro 1929 / agosto 1931
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palavras-chave: Santa Catharina
ânfora - Fábrica de Louças Santa Catharina

ânfora
Fábrica de Louças Santa Catharina
São Paulo - SP
louça de pó de pedra
decoração com relevo moldado
setembro 1929/ agosto 1931
cortesia coleção Washington Marcondes
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palavras-chave: Santa Catharina
Louça fabricada no início do século em São Paulo tinha identidade própria
entrevista com Rafael Souza, Aqueólogo
fonte: http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia182/2010/10/23/diversaoearte,i=219524/PORCELANA+FABRICADA+NO+INICIO+DO+SECULO+NO+BRASIL+TINHA+IDENTIDADE+PROPRIA.shtml
Como surgiu o interesse pelo estudo das louças brasileiras?
A louça, enquanto artefato arqueológico, é um rico material que possibilita inúmeras reflexões em torno de seus usuários e fabricantes, em diferentes épocas. A louça branca é bastante estudada como objeto indicador de status socioeconômico e como referência cronológica. Desse modo, a não identificação dessa louça como brasileira nos sítios arqueológicos, mas como inglesa, por exemplo, poderia fazer com que a interpretação construída em torno da história das pessoas que ali moraram e as utilizaram recuasse no tempo, além de transformar “operários” em “barões”, uma vez que a louça, naquele período (primeiras décadas do século 20), passou a ser consumida por muitos grupos. A presença das fábricas, pelo menos em São Paulo, possibilitou diferentes formas de acesso a elas que não necessariamente pela compra em dinheiro. Por fim, meu interesse surgiu também por uma crítica à visão tradicional de que as cidades não possuem potencial arqueológico, por estarem “destruídas”. Esta é uma visão errônea. A cidade possui um enorme potencial arqueológico.
Quais são as principais diferenças entre a louça brasileira do início do século e a européia?
As principais diferenças relacionam-se especialmente aos atributos decorativos, isto é, padrões decorativos, técnicas de produção das decorações, e de modo mais amplo, os motivos e temas. É importante ter em mente que tanto os motivos como os temas nas louças dialogam com práticas e preferências de consumo dos consumidores, além do que foi pensado pelos proprietários da fábrica para a louça; deste modo, algumas louças brasileiras apresentam decorações em florais bastante específicos, com representações de margaridas e flores de maracujá, muitas vezes organizadas no campo decorativo segundo um esquema iconográfico bastante próprio. Por outro lado, existem alguns diferenciais ligados a tecnologia de produção das faianças finas brasileiras, como, por exemplo, a composição dos vidrados, a espessura das peças e as marcas do processo de esmaltação. Lembro que, do ponto de vista arqueológico, esta diferenciação é facilitada pelo contexto no qual estas louças são encontradas.
No material utilizado para a fabricação você também encontrou diferenças?
Sim. Temos de ter em mente, ao estudarmos um sistema de fábrica de louças brancas em faiança fina no Brasil, como a que estudei para São Paulo (a Fábrica de Louças Santa Catharina posterior IRFM – São Paulo), que não existe criação a partir do nada, mas, por outro lado, reduzir a cadeia de produção e as tecnologia usadas aqui a meras cópias de louças européias, é uma explicação demasiado simplista. Deste modo, nossas louças brancas sofrem, claro, inspiração de outras fabricações já estruturadas, mas possuímos especificidades e originalidades. Para a louça branca deste começo de século, somaram-se tecnologias de produção local a tecnologias estrangeiras, a partir de um corpo de trabalhadores tanto brasileiros como europeus, e até asiáticos, cada um trazendo sua contribuição. Os roletes, por exemplo, finas “tiras” de argila enroladas são muito característicos de produções cerâmicas no país, e foram muito encontrados no sítio arqueológico que estudei, especialmente ligados ao processo de fabricação e restauração das caixas refratárias (onde são postas as louças para ir para o forno). Por outro lado, foram encontradas trempes, pequenos pedestais com três pontas, tradicionais e recorrentes tanto em fábricas na Europa como em outros locais do mundo.
A que você atribuiria essa diferença? Porque mesmo em um período em que se copiava a cultura européia, o Brasil desenvolveu um aspecto tão pessoal?
Temos de ter em vista que a noção de “cópia” é um pouco mais complexa do que supomos geralmente. Primeiramente, a idéia de “ser Europa” ou “europeizar hábitos” era uma postura de parte das elites, no caso de São Paulo, e que apesar de bolarem políticas para tal, isso não quer dizer que famílias operárias quisessem adquirir hábitos de uma suposta “cultura européia”. As fábricas de louça brasileira tiveram de dialogar com os projetos de modernidade, do começo do século XX, de seus proprietários, imersos em contextos que visavam muitas vezes normatizações a fim de combater, por exemplo, em prol de uma idéia de “moderno”, aquilo que seria considerado tradicional, colonial, atrasado, rural, e com os consumidores destes artefatos, também grupos como operários, mamelucos, imigrantes, ex-escravos e demais populações que moravam agora na cidade de São Paulo, e que ainda sorviam caldos em tigelas e comiam em pratos sem o auxílio de talheres. O aspecto original desta louça brasileira é resultado de uma somatória de fatores e da dialógica que se montou entre produção e consumo; afinal, havia aqui uma demanda específica por louças e por padrões decorativos que dialogavam com a conjuntura na qual estavam imersas e que não era, obviamente, a européia.
Como surgiu o interesse por pesquisar esse tipo de produto?
O interesse em pesquisar este tipo de produto veio de minha inquietação em torno da ausência de uma bibliografia sobre a produção de louças brancas nacionais. A louça enquanto artefato arqueológico é um rico material que possibilita inúmeras reflexões em torno de seus usuários e fabricantes, em diferentes épocas. Enquanto objeto de estudo da Arqueologia Histórica, uma arqueologia mais focada em estudos de sítios arqueológicos cuja ocupação recua até a chegada dos europeus à América, a louça branca recorre bastante enquanto objeto indicador de status sócio-econômico e enquanto indicador cronológico. Busquei questionar estes paradigmas, estudando a louça branca brasileira, uma vez que a mesma foi produzida e consumida em larga escala no século XX, não sendo, portanto, um produto do século XIX, e seu barateamento, com a produção nacional, possibilitou que uma maior parcela da população acessasse este produto. Deste modo, a não identificação desta louça como brasileira nos sítios arqueológicos, mas como inglesa, por exemplo, poderia fazer com que a interpretação construída em torno da história das pessoas que ali moraram e as utilizaram, gerando aquele refugo que compõe o sítio arqueológico, recuasse no tempo, além de transformar “operários” em “barões”, uma vez que a louça, neste momento, passa a ser consumida por muitos grupos e a presença “física” das fábricas, pelo menos em São Paulo, possibilitou diferentes formas de acesso a elas que não necessariamente pela compra em dinheiro.
Tendo em vista uma postura teórica pós-colonialista em minha formação, busquei, de modo amplo, “descolonizar imaginários”, como disse um dos grandes intelectuais do século XX, Edward Said, também na arqueologia, questionando a supervalorização da louça inglesa em nossos olhares, sempre ressaltando o estrangeiro como melhor; quis questionar este paradigma de modernidade onde nos encaramos, ou somos vistos, como uma “cópia” de algo “original”, e, portanto, se cópia, mal feitos, porque nunca iguais ao original, sendo este original, em geral, a Europa. Assim, seria interessante buscar paradigmas latino-americanos que questionassem visões eurocêntricas como estas, implodindo conceitos de centro e periferia; a análise das louças brancas em faiança fina do sítio Petybon permitiu estas inferências.
Por fim, meu interesse surgiu também por uma crítica a uma visão bastante tradicional de que a cidade não possui potencial arqueológico, por estar “destruída” ou “antropizada”. Esta é uma visão errônea; a cidade possui um enorme potencial arqueológico, estudado pela Arqueologia Urbana e pela Arqueologia Histórica, e cada pequena parte sua é passível de leituras arqueológicas: tudo na cidade é antrópico e antropizado, e é isto o que a arqueologia estuda, basta que o pesquisador calibre seu olhar. A descoberta do sítio arqueológico Petybon trouxe a tona novamente esta discussão, pois no meio da zona metropolitana de São Paulo, no bairro da Lapa, estavam as toneladas de louças brancas compondo aterros e bolsões de descarte, junto aos alicerces enterrados de uma das primeiras fábricas de louça branca do país, de 1913.
Qual a importância de se estudar esse tipo de aspecto?
Estudar a originalidade das louças em faiança fina brasileira permitiu questionar discursos de uma São Paulo, do início do século XX, que se apresentava como moderna, urbanizada, “europeizada”, elitista, e que deixava de fora muitos de seus principais componentes, inclusive elaborando políticas que visavam apagar não era considerado moderno, ou seja, hábitos tidos como rurais, coloniais, etc. A partir disto a análise das louças brasileiras do sítio arqueológico Petybon, refletindo sobre práticas e hábitos, possibilitou o questionamento de teses baseadas em abordagens que pressupõem uma “ideologia dominante”, já que os grupos que não as “elites” também possuíam traços culturais próprios, não sendo/querendo ser “cópia” de uma elite ou “desvio” de um modelo original, que pressupõe uma visão rígida de cultura. Abordar tais aspectos foi questionar os paradigmas da modernidade latino-americana através da cultura material, o que é uma contribuição eminentemente arqueológica. Estudar a história da fabricação de louça branca no país foi também adentrar num assunto pouquíssimo estudado e trazer à tona questões relacionadas a setores da população que antes não consumiam louça branca, assim como seus hábitos culturais, práticas identitárias e mecanismos de ação e resistência, já que o modo como nos alimentamos é bastante devedor da conjuntura da qual viemos e na qual estamos imersos.
Deste modo, estudando as louças brancas de um sítio arqueológico específico em São Paulo busquei mostrar como elas dialogam com as concepções de modernidade vigentes na cidade de São Paulo no começo do século XX. A fábrica de louça Santa Catharina foi intermediária entre a intenção de produção das elites, os usos pretendidos dos objetos e as condições de consumo, os usos reais dos mesmos. A permanência das tigelas durante o período parece apontar para manutenção de identidades culturais de uma população com costumes rurais na cidade, apontando para a fragilidade da dicotomia campo-cidade. Foi possível ainda perceber como os discursos normativos e disciplinares de modernidade dialogam com o que a Arqueologia do século XIX e XX encontra na cultura material dos sítios arqueológicos. Tudo a partir da análise dos artefatos em louça branca.
Comente um pouco a diferença entre a pesquisa arqueológica recente e a da que estuda séculos distantes?
Em primeiro lugar, é importante dizer que a Arqueologia, se possui alguma data que determine o início de um escopo temporal que delimite sua área de atuação, como o surgimento do homem, não possui uma data final, ou seja, não existe “isto é arqueológico porque é de 1600 e isto não é arqueológico porque é de 1900”. Uma rodela de sandália de borracha feita por uma criança para servir de roda para um carrinho de lata de sardinha no sertão do nordeste em 2008, como já observei em diversos sítios arqueológicos históricos na região, é tão importante, relevante, e passível de uma reflexão como uma louça portuguesa do século XVII ou uma cerâmica marajoara. O que está em questão é a concepção de tempo intrínseca ao pesquisador que olha a cultura material e que a classifica como “muito moderna” ou “muito antiga”; não deveríamos pensar no que é recente ou não, mas sim no que é “arqueológico”, epistemologicamente.
Se a arqueologia estuda as expressões materiais da cultura, uma sandália de borracha é um artefato; se ela estuda o passado, um segundo atrás pode ser considerado passado. Assim como na história contemporânea, existe um certo receio, ainda, de realizar arqueologia de tempos mais recentes, como o século XX, talvez por um estranhamento, por um afastamento de temáticas de um período que envolve muitas questões de conflito, talvez por uma dificuldade de distanciamento daquela cultura material, pois, afinal, somos muito ligados a ela e nos enxergar sobre o olhar crítico de uma área científica é bastante difícil – muito mais do que nos pautarmos apenas no “outro cultural”. Mas isto está mudando, em todo o mundo, e temos de dialogar com a produção científica latino-americana e do restante do globo. Uma arqueologia do passado contemporâneo ou uma arqueologia do presente possibilita um diálogo não só mais intenso com as pessoas que utilizaram aqueles artefatos, mas com a riqueza do conhecimento êmico nas interpretações, possibilitando a geração de narrativas alternativas que dêem espaço a visões diferenciadas do passado que são tão “verdade” quanto aquelas geradas pelo arqueólogo, questionando duramente as supostas “objetividades” e “neutralidades” das pesquisas científicas. Inúmeras pesquisas, atualmente, seguem esta linha, como a arqueologia das ditaduras e dos regimes totalitários.
Ao estudar o começo do século XX, pude entrar de alguma forma num universo ainda pouco explorado, o do cotidiano opressor do sistema de fábrica, e as ações e re-ações dos trabalhadores que ali conviviam, assim como dialogar com uma sociedade tão diversa como a da São Paulo que se formava ali e da qual somos diretamente devedores atualmente. Uma arqueologia de um mundo recente lida com questões ainda muito vivas em nossas memórias como sistemas opressores de trabalho, guerras, conflitos, holocaustos, migrações e segregações ou marginalizações, processos dos quais somos, de um modo ou de outro, “filhos”, querendo ou não. É uma grande responsabilidade tentar trazer à tona problemáticas de exclusão, por exemplo, seja trabalhando com operários seja com sertanejos, mostrando modos de vida, especificidades, práticas e hábitos culturais de populações que muitas vezes não tem voz ou não aparecem nos registros escritos que tendem muito a ser “elitistas” do ponto de vista de uma elite letrada, ainda mais num país como o Brasil. De qualquer modo, acho que a Arqueologia deveria ser pensada para além de termos de “tempo”, pelo menos aquele tempo linear, e rumar a um tempo mais rizomático, na concepção deleuziana. Na verdade, a arqueologia dos séculos XX e XXI produzidos nestes séculos, mas lembro um pouco a máxima de Marc Bloch para a História e acredito que toda a arqueologia deveria ser vista como uma arqueologia do presente, pois convivemos contemporaneamente com o sítio arqueológico e sua cultura material, e tanto as questões que levamos para os artefatos como as formas de respondê-las são do nosso presente.
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palavras-chave: arqueologia, Santa Catharina
Análise arqueológica diferencia louça brasileira da inglesa
fonte: http://www.usp.br/agen/?p=35762
por: Rafaela Carvalho
1 de outubro de 2010
A análise arqueológica de uma fábrica de louças desativada nos anos 1930, no bairro da Lapa, em São Paulo, revelou que a fabricação de louças brancas no País não tentava agradar apenas as elites. Apesar da influência pós-colonial da Europa, havia um diálogo da fábrica para com a cultura local. Segundo o historiador Rafael de Abreu e Souza, o sítio arqueológico de nome Petybon trazia o material em diversas etapas de fabricação, possibilitando a diferenciação do produto brasileiro em relação ao produto inglês entre as décadas de 1910 e 1930. “A análise da cerâmica, do esmalte e do tipo de pasta usados na fabricação dessa louça brasileira tornam possível a identificação do produto nacional”, conta o pesquisador.
Em seu estudo apresentado no Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE), Souza conseguiu traçar a cadeia produtiva da louça e perceber detalhes estéticos que eram característicos da cultura brasileira, comprovando que o produto não era inglês.
Louças mostram industrialização e adaptação ao cotidiano dos brasileiros
A popularização da louça chega ao Brasil no começo do século 20 — a fábrica pesquisada, por exemplo, foi aberta em 1913. É um momento, segundo Souza, de paranoia higienística, de combate a materiais porosos e de projetos elitistas de modernização, como a Revolta da Vacina.
Um exemplo do “diálogo” da fábrica com a cultura local, segundo o historiador, é a grande quantidade de tigelas que encontradas no sítio. “O hábito dos brasileiros mais simples era de se alimentar sem o uso de talheres, colocando a comida em cuias de cerâmica e pegando-a com as mãos. As fábricas de louça, percebendo esse hábito, fabricaram tigelas, que ganharam popularidade no Brasil”, descreve.
A louça analisada também tinha características estéticas que comprovavam sua origem e adaptação brasileiras, como os desenhos e as cores utilizadas. “Nessa época, Brasil começava a se industrializar e o êxodo rural ganhava força. Então, o que se vê desenhado nas louças é a representação de motivos ligados ao tema do bucólico, com a natureza em alta.” Pintura de flores e frutas eram as mais comuns, enquanto nas pinturas de louças inglesas, via-se pinturas como castelos. “Além disso, as cores das pinturas eram muito diferentes. Enquanto na Europa havia o hábito de usar roxo e azul, aqui no Brasil eram usadas cores mais quentes, como amarelo, vermelho e laranja”, conta Souza.
Ambiente de trabalho
A pesquisa, porém, não se limitou apenas às características da louça. Coletando materiais no sítio Petytbon, Souza percebeu que alguns materiais mostravam as formas por meio das quais os operários se adaptavam ao ambiente fabril opressor dá época. O historiador conta que há uma louça com uma inscrição “caipira Rafael”, feita a lápis. “Pode ser uma piada, uma brincadeira… é uma das formas que o operário encontrou para sobreviver naquele cotidiano”, explica.
O pesquisador também conta que, em algumas louças, é possível ver impressões digitais, o que fortalece a presença do operário e do ser humano nas fábricas. “As digitais mostram que o ser humano estava lá, mesmo em meio a um ambiente organizado em cadeias de produção taylorista.”
A cultura material, segundo Souza, é fundamental para entender o comportamento das sociedades. “O diferencial de um trabalho de arqueologia do mundo recente [no caso, do século 20] é poder conversar com pessoas que viveram aquilo. Há um conceito muito conservador de tempo, que diz que a arqueologia só pode estudar algo que aconteceu séculos atrás e isso não é verdade. A arqueologia do mundo recente é mais engajada com a comunidade.”
A dissertação de mestrado Louça branca para a Paulicéia: arqueologia histórica da fábrica de louças Santa Catharina / IRFM – São Paulo e a produção da faiança fina nacional (1913-1937) foi apresentada ao MAE no dia 18 de março de 2010 e orientada por Margarida Davina Andreatta.
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palavras-chave: Santa Catharina
só vemos aquilo para o qual nos preparamos para ver
trecho de APRESENTAÇÃO (OU POR UMA ARQUEOLOGIA URBANA ANTRÓPICA)
de: LOUÇA BRANCA PARA A PAULICÉIA: ARQUEOLOGIA HISTÓRICA DA FÁBRICA DE LOUÇAS SANTA CATHARINA / IRFM - SÃO PAULO E A PRODUÇÃO DA FAIANÇA FINA NACIONAL (1913 - 1937)
por: Rafael de Abreu e Souza
Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Arqueologia do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo, para obtenção do título de Mestre em Arqueologia.
São Paulo, 2010
disponível em: http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/71/71131/tde-24032010-170351
Pina-Cabral percebeu, em suas pesquisas, que havia algo na cerâmica popular portuguesa que ninguém percebera antes e que não constava em registros escritos nem em qualquer outra fonte: refere-se à vasta tradição local da indústria cerâmica de artefatos em forma de falo, em Portugal (1993). O antropólogo notou que muitos dos aspectos da cultura popular portuguesa não eram vistos pelos olhos dos pesquisadores e que este tipo de cerâmica foi ignorada, mesmo existindo há muito tempo.
São os olhos dos cientistas que vêem apenas aquilo que querem ver, já nos mostrava os Annales desde o final dos anos 1920 (BURKE 1986). Para a arqueologia, Gallay (2002) afirmou que “só vemos aquilo para o qual nos preparamos para ver”. Se não estamos, portanto, preparados para a louça brasileira, não a vemos. Fica a dúvida se a faiança fina nacional realmente não estava no sítio ou não foi diagnosticada por não estarmos preparados. (...)
Os questionamentos de Pina-Cabral nortearam algumas das questões da presente pesquisa em torno da louça em faiança fina, mais barata, mais popular, de fabricação brasileira, que está nos sítios arqueológicos, mas que é pouco estudada e pouco valorizada.
(...) Tenho a impressão, às vezes, de que há uma supervalorização da louça inglesa em detrimento das cerâmicas locais nas abordagens da Arqueologia Histórica (...). Há que se ter em mente que objetos e sujeitos históricos emergem de construções discursivas (RAGO 2004). Por isso este trabalho é uma proposta de mudança de escalas de observação, a fim de sugerir mudanças em interpretações (SASSAMAN 2005: 335).
No universo das cerâmicas de produção brasileira, ou de produção local, o que é, afinal, essa louça branca? O que é este artefato tão cotidiano, relativamente comum, que faz parte de nosso dia a dia e ao qual não prestamos muita atenção? (...) Para Orser, a análise destes artefatos “banais” propiciaria nossa entrada em um mundo fluido de significados, desafiaria interpretações mais simplificadas (2005). (...) A louça brasileira, banal e corriqueira nos sítios arqueológicos, sob outro prisma, pode mudar a interpretação sobre o contexto do sítio, sua cronologia e os hábitos e características daqueles que as utilizaram. Exemplo disso é a própria porcelana brasileira, muitas vezes descrita como um objeto não identificado, ou a faiança fina nacional que, apesar de difícil identificação, é freqüentemente tomada como estrangeira.
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palavras-chave: arqueologia, Santa Catharina
Feira do Lavradio - 05/07/2008
Hoje a Feira do Lavradio estava muito fraca, como tem sido sempre; a cada edição a invasão do artesanato ruim, sem criatividade toma conta de uma feira que um dia já foi principalmente de antiguidades e colecionismo.
Mesmo assim, comprei com um vendedor que quase sempre eu encontro alguma coisa interessante esta travessa média Zappi, com aspecto de novinha em folha, com uma estanholas super complexa e bonita, e ao mesmo tempo muito bem executada:


A rua do Lavradio é cheia de lojas de usados, especialmente móveis, e numa delas, exposta na rua, sobre uma cômoda, com um monte de penas coloridas enfiadas, encontrei essa jarra de gomil Santa Catharina:


Tive que negociar MUITO para comprá-la por um preço razoável, pois uma coisa que estas lojas do Lavradio são é MUITO CAREIRAS! E olha que a peça estava imunda, quase preta de tanta sujeira, era de uma loja que é um mafuá (um ferro-velho é mais arrumado), e mesmo assim os preços...
Achei curioso o segundo carimbo abaixo do carimbo da fábrica, onde está escrito "COMMERCIAL":

Fico aqui me perguntando o que isso significa... Seria uma peça de mostruário?
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