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propaganda - MNP


MNP / Klabin
outubro 1937
revista Ilustração Brasileira

urna - Manufatura Nacional de Porcelana S/A






urna
Manufatura Nacional de Porcelana S/A (M.N.P.)
Rio de Janeiro - RJ
louça de pó de pedra
45 (h) x 27 (d) cm
decoração pintada à mão livre
circa 1927

fonte: site Mercado Livre

Esta peça é de uma marca difícil de ser encontada, daqui do Rio de Janeiro, uma das pioneiras na fabricação de louça de mesa (pó-de-pedra e porcelana fina) e azulejos no país, fundada em 1919. Em 1930 era considerada a maior do gênero na América Latina.
As peças de mesa e decorativas são difíceis de encontrar pois o principal produto desta fábrica era o azulejo.

saibam um pouco mais sobre a Manufatura Nacional de Porcelana neste antigo post: Manufatura Nacional de Porcelana é SIM a primeira!

ramequim - Manufatura Nacional de Porcelana



ramequim
Manufatura Nacional de Porcelana S/A (M.N.P.)
Rio de Janeiro - RJ
louça de pó de pedra
10,5 (d) x 7,5 (h) cm
sem decoração


Esta peça é de uma marca difícil de ser encontada (é apenas a minha 3a peça desta fábrica), daqui do Rio de Janeiro, uma das pioneiras na fabricação de louça de mesa (pó-de-pedra e porcelana fina) e azulejos no país, fundada em 1919.


As peças de mesa são ainda mais difíceis de encontrar pois o principal produto desta fábrica era o azulejo. Esta pequena tigela é bem parecida com as que são usadas hoje em dia para se fazer crème brûlée, que como aprendi com o Manel, caro amigo de Portugal, se chamam "ramequim".

processos decorativos

Eu hoje por acaso passei pelo verbete "Porcelana" da Wikipédia, e resolvi melhorar a seção "decoração", que estava muito incompleta. Como nunca se sabe o que vai acontecer a um verbete naquela enciclopédia multi-colaborativa, resolvi deixar aqui no blog a minha versão para esta seção do verbete:


A decoração da porcelana é feita de diversas formas: com o uso de pintura à mão livre, uso de estanhola (molde vazado), a aplicação de decalque, transfer e a de filetes (ou listel). Algumas peças recebem mais de um processo durante sua decoração.

Como o processo de decoração feito com pintura manual demanda muitos artesãos qualificados, e maior tempo de execução, não é mais praticado em larga escala, exceto por algumas poucas fábricas, que tem na decoração manual o seu diferencial.




xícara de chá da Manufatura Nacional de Porcelana,
inteiramente pintada à mão

A estanhola nada mais é que um molde vazado, que serve de máscara para a aplicação da tinta à mão, com uso de pincel ou aerógrafo.


caixa da Cerâmica Mauá, decorada com o uso de estanhola

O decalque é um adesivo impresso em gráficas, em um papel adesivo especial, que é removidos do suporte quando mergulhado em água, e é então aplicado na peças de porcelana. Após ser colocado na posição correta, passa-se uma borracha para alisá-lo e fixá-lo. Na queima final da peça de porcelana, o papel adesivo é carbonizado, restando apenas a tinta impressa no decalque, que se funde ao verniz da porcelana.


jogo de café & chá da Porcellana Mauá,
decorado com uso de decalques e filetes em ouro

O transfer é um processo similar ao decalque, pois também é uma imagem impressa sobre um papel (ou tecido, forma mais antiga de aplicação de transfer). Mas enquanto o decalque é aplicado após a vitrificação da porcelana, o transfer é aplicado antes, desta forma ficando por baixo do verniz final ("baixo verniz"), e sendo mais resistente ao desgaste. Geralmente é monocromático, e é a forma tradicional de decoração das peças "azul e branco", e as decorações que costumam recobrir em larga escala uma peça, como cenas inglesas, padrões florais, etc.



peças da Matarazzo decoradas com uso de transfer

Os filetes são aplicados com dois tipos de pincéis: a trincha (pincel largo e sem ponta) e o pincel fino (de ponta fina e delicada). As peças são colocadas em um torno para que possam girar livremente, assim a mão do filetador pode ficar apoiada e fixa evitando falhas no filete.

Após a decoração, as peças passam pelo controle de qualidade e a seguir sofrem a segunda queima para fixação da decoração. Atualmente em algumas decorações e filete já está no decalque (adesivo), reduzindo assim o processo em apenas uma queima.

Manufatura Nacional de Porcelana é SIM a primeira!

Desde que comecei a pesquisar sobre a louça brasileira, sempre me deparei com a afirmação de que a "Porcelana Mauá é a pioneira na fabricação de porcelana fina no Brasil".

Isto me intrigava, pois desde o início eu sabia que houve outras fábricas de porcelana ANTES da Porcelana Mauá. Isto sempre me pareceu um slogan comercial da Porcelana Mauá, que foi tão bem "martelado" no mercado, que praticamente virou uma "afirmação científica".

Mesmo algumas das fontes bibliográficas que tive acesso, que repetem esta idéia de pioneirismo da Mauá, em algum outro ponto citam outras fábricas que produziram porcelana no Brasil, antes da Mauá.

Acho que a verdade e a clareza das afirmações têm que ser SEMPRE RESPEITADAS, ainda mais para quem pretende apresentar a história de qualquer aspecto da cultura humana (embora não seja novidade para nenhum de nós que história é SEMPRE um recorte tendencioso e parcial de uma realidade maior e mais cheia de detalhes e sutilezas).

A Mauá começou a operar em 1937, mesmo assim, só conseguiu sucesso industrial na década seguinte. Em 1942, com a saída de um dos fundadores originais, Fritz Schmidt, que tinha os conhecimentos técnicos do processo de fabricação da louça, levando consigo não apenas este conhecimento, mas também todos os demais membros da família Schmidt com ele, a Porcelana Mauá chegou a parar de produzir.

Mas muito antes disso, em 1921, a Porcelana D. Pedro II já fabricava porcelana no Rio de Janeiro.

Entre 1927/1929, a também carioca Manufatura Nacional de Porcelana, fundada em 1919, mas que aparentemente só começou a efetivamente produzir em escala em 1922, também começa a fabricar serviços de porcelana de mesa.

Isto sem mencionar as experiências pioneiras (embora artesanais) de João Manso Pereira, no final do século XVIII, entre 1790 e 1797, que produziu jogos de porcelana dura e camafeus de biscuit em estilo Wedgwood. Há inclusive registro de suas marcas de 1793 usadas no Brasil e em Lisboa no “Guide de l’Amateur de Porcelaines et de Fayences”, de E. Zimmerman (13ª edição, 1910).

Não podemos nos esquecer também da Cerâmica Nacional, de Caeté, BH, que já no final de 1894 tinha toda a sua linha de produtos planejada por João Pinheiro, seu fundador, que ia desde a louça mais simples e barata, até a porcelana, passando pela faiança e pelo grés, pronta para iniciar produção. E entre 1903 e 1921 esta fábrica produziu porcelana de forma industrial, sendo esta a verdadeira pioneira da fabricação de porcelana de forma industrial no Brasil. João Pinheiro desenvolveu peças de porcelana, decoradas em ouro, que causaram admiração aos especialistas franceses.

Então só sobrava a alternativa de entender este slogan da Mauá, que virou um lugar comum entre os estudiosos de louça no Brasil, através da expressão "porcelana fina". Talvez, não mentindo, mas sendo parcial ao contar uma história através de uma estratégia comercial, eles se "venderam" como os pioneiros por terem sido os primeiros a fazer no país uma porcelana mais sofisticada, fina não apenas (ou exatamente) no sentido de alto gabarito, algo que se assemelhasse mais com a louça européia, se afastando da faiança mais pesada já bastante comum no país pela década de 1940.


jogo de café em chá porcelana canelada da Porcelana Mauá, déc. 1940

Cabe lembrar, entretanto, que o primeiro sucesso comercial da Porcelana Mauá, e que até a salvou da falência, foi a louça canelada, mais grossa e resistente, com um aspecto mais rústico e "do interior" (que eu adoro!), que foi fabricado por praticamente todas as manufaturas de porcelana no Brasil por esta época.

Mas depois de uma descoberta que fiz na Feira do Lavradio (RJ) no início deste mês, nem mais a tese de "pioneiros da porcelana fina" se sustenta: enfurnada no meio de um monte de porcaria (por pouco eu não a via), muito suja e abandonada, encontrei uma xícara de chá da MNP (Manufatura Nacional de Porcelana), linda, com decoração delicada pintada à mão.



Foi sorte eu a ter pego, pois de longe achei até que era coisa japonesa, mas algo "clicou" na minha memória, e depois eu percebi o que foi: a decoração dela é quase igual a de uma sopeira que eu fotografei em BH:

Mas o melhor de tudo é que ela é de PORCELANA LEGÍTIMA! Fininha, translúcida (por isso até que pensei que era "japa"). Por muito tempo me assombrou esta dúvida de se a Manufatura Nacional de Porcelana haveria afinal produzido porcelana verdadeira, pois no pouco que achei de bibliografia, há quem afirme que sim, e outros que não. E até hoje eu só conhecia uma travessa grande que eu tenho (de faiança / pó-de-pedra) e a tal sopeira de BH, que não consegui verificar na ocasião, mas agora, verificando em detalhes as fotos que fiz da mesma lá em BH, pude ver que não há um craquelado sequer, o que me faz acreditar que esta sopeira seja também de porcelana.

Agora ACABOU a dúvida: fizeram SIM porcelana e de ótima qualidade, fina, translúcida, bem acabada, lisinha, elegante.

Morreu de vez essa história de que a Porcelana Mauá foi a primeira a fazer "porcelana fina" no país! A Manufatura Nacional de Porcelana fez primeiro!