por Ethel Leon
para a revista Florense, no. 18
http://www.florense.com.br/
Alguém já disse que, no Brasil, não fossem os colecionadores particulares, seria impossível pesquisar muitos aspectos da vida cultural. O carioca Fábio Carvalho só reforça essa impressão. Há quatro anos, ele pesquisa, sozinho e por conta própria, a indústria brasileira de porcelana.
O resultado se transformou em site e em livro e dá conta de 321 fábricas de louças de mesa e decorativas, material para laboratório e louça sanitária. O trabalho permite que proprietários, museus, antiquários e colecionadores de louças brasileiras classifiquem seus objetos, entendam o que têm em mãos, valorizem as peças e, eventualmente, até ganhem dinheiro com elas.
A pesquisa não começou em uma universidade, nem em um museu. Em 2004, Fábio ganhou de seus pais o apartamento onde sempre moraram, no Rio de Janeiro. A residência foi doada com tudo que havia dentro, inclusive peças de louça do enxoval do casamento, de 1963. Fábio procurou objetos e móveis para decorar a casa e, ao comprar um grande prato de bolo em faiança da Cerâmica Matarazzo, foi “infectado”, como conta, “pelo vício do caulim”. Continuou a adquirir louças de porcelana, nacionais e estrangeiras.
Ao tentar informar-se sobre as peças, percebeu aquilo que tantos pesquisadores da nossa cultura já sabem: é mais fácil obter história, detalhes e análises de pratos e xícaras da francesa Sèvres, da alemã Meissen ou da inglesa Wedgwood do que saber quem fabricou um jogo de jantar nacional. Entre curioso e desapontado, Carvalho saiu a campo, desandando a pesquisar os museus de louças, os antiquários, colecionadores, as feiras de arte e quinquilharias.
Também decidiu consultar arquivos e bibliotecas. Uma das primeiras a que recorreu foi a do Instituto Nacional de Propriedade Industrial, responsável por editar a Revista de Propriedade Industrial. Lá ficou sabendo que o órgão não possui em seu acervo a coleção completa da publicação. Os números esgotados estão sendo microfilmados, mas os microfilmes não são emprestados a outras bibliotecas. “Trata-se de arquivo morto”, indigna-se o pesquisador.
As decepções não pararam por aí. A delegacia regional do INPI de São Paulo se desfez de todas as revistas que guardava... por falta de espaço. E, pior, a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, que preserva todas as publicações do país, enviou seu arquivo do Diário Oficial para um anexo no antigo cais do porto do Rio. Lá, ainda não está aberta ao público. Carvalho precisava dos diários oficiais e das revistas do INPI para localizar os registros de marcas, fonte imprescindível para pesquisadores de diversos aspectos de nossa história industrial.
E levou muito tempo para levantar dados de seu trabalho documental. Ele relata: “A fonte de pesquisa mais densa sobre datação foram os mais de sete meses comendo ácaro e poeira em algumas bibliotecas, consultando a Revista de Propriedade Intelectual, onde eram publicados os registros de marcas, modelos e decorações. A pesquisa nos catálogos telefônicos do Rio de Janeiro foi muito importante para localizar e recuperar os períodos de atividade das fábricas cariocas”.
A datação de porcelanas, a partir das marcas de fabricantes gravadas nas peças, foi um minucioso esforço de arqueólogo. Carvalho reunia e organizava as informações que ia conseguindo sobre cada peça individual. “Aos poucos, consegui identificar os períodos aproximados de muitas marcas”, conta o pesquisador. “De algumas delas foi mais fácil, como a Porcelana Mauá, Schmidt, Real, pois produziram muitas peças comemorativas datadas, mas, de outras, foi um trabalho lento”.
Apesar de tantas dificuldades, sua pesquisa – que não contou com qualquer apoio, como bolsa ou financiamento – rendeu um feito e tanto. O livro, de 142 páginas, reproduz as marcas das indústrias, conta a história de muitas delas, lista diferentes formas e decorações de peças, apresenta uma linha do tempo, que – pasmem – começa em 1790, e ainda enumera 160 fábricas, das quais ele não conseguiu qualquer informação. O site tem mais de 400 páginas sobre a história das fábricas nacionais e mais de 5.900 fotos de marcas e peças de faiança e porcelana, além de uma extensa bibliografia sobre o assunto.
As instituições que o ajudaram foram o Centro de Documentação Coronel João Pedro de Godoy Moreira e o Museu Histórico e da Porcelana, ambos em Pedreira, São Paulo; a Fundação Pró-Memória e o Museu Histórico, de São Caetano, São Paulo; e o Museu Barão de Mauá, na cidade de Mauá, também em São Paulo. “Como todo museu brasileiro, estes lutam contra a falta de verbas, de funcionários qualificados e instalações adequadas. Mesmo assim, fazem um trabalho maravilhoso de conservação e acumulação de objetos, documentos e fotos”, reconhece o pesquisador.
Toda essa investigação foi feita à medida que Carvalho ampliava sua própria coleção, dedicada, a partir daí, à porcelana brasileira. Em sua casa, ele mantém mais de 1.500 peças, a mais antiga delas uma malga (tigela) da Fábrica Santa Catharina, da década de 1910.
Carvalho constatou que boa parte das fábricas pertenceu a italianos, alemães e portugueses que aqui continuaram o que faziam na Europa. Nesse sentido, segundo ele, não seria correto falar de “cópias” de modelos estrangeiros, mas de uma espécie de continuidade do ofício. Nossas fábricas fizeram jogos de café com pequenas leiteiras, ignorando nossos hábitos do café com leite; e se esmeraram em reproduzir motivos rupestres, flores e folhagens, filamentos neoclássicos que vemos em louças européias. Nada estranho, diz ele, “se lembrarmos que as manufaturas européias tanto imitaram as louças chinesas”.
Percorrer o livro e o site é um delicioso exercício de reconhecimento e de surpresas. Já na página 8 do livro, tomamos contato com a Fábrica de Louças Adelinas, do português Manoel de Barros Loureiro, fundada em 1929, em São Caetano do Sul, São Paulo. O nome da empresa resultou do gesto apaixonado de seu proprietário pela esposa num daqueles casamentos que prometia durar para todo sempre. Com técnicos contratados na Alemanha, na França e em Portugal e diretor técnico italiano, tornou-se uma das maiores fábricas de louças do Brasil, chegando a ter mais de 1.200 operários e produção anual de 18 milhões de peças, no final dos anos 1930. Pois não é que, em 1947, Manoel se separou de Adelina, num turbulento processo de divórcio e desentendimento entre os filhos sócios? A fábrica foi fechada e Loureiro criou a Manufatura Brasileira de Louças. Com sua morte, em 1951, a viúva Adelina assumiu os negócios e fechou o prédio da fábrica. Para piorar a situação, no ano seguinte, descobriu-se que a produção era desviada para armazéns particulares, e a empresa foi fechada judicialmente. Agora, sim, para sempre.
Mas também há histórias felizes, como a da família Mizuno, que chegou ao Brasil em 1953 e abriu a fábrica com seu nome em 1956. As instalações resumiam-se a um simples galpão industrial de eucalipto com paredes de barro. Os tornos foram montados com peças de ferro velho; os fornos, de lenha, construídos com tijolos de olaria. Nos anos 1970, os Mizuno começaram a fabricar louças para a comida japonesa e, seguramente, se beneficiaram com a popularização dos sushis e sashimis. A Porcelana Mizuno já está na terceira geração e continua produzindo com as técnicas japonesas.
As pequenas resenhas de algumas fábricas mostram as vicissitudes da atividade no Brasil. Veja-se o caso da empresa Colombo, do Paraná. Fundada pelo italiano Francisco Busato, importou máquinas e técnicos da Itália, conseguiu isenção de impostos por 15 anos e produziu louça fina, mas, apesar de receber medalha de ouro na Exposição Agrícola e Industrial de 1900, não conseguiu decolar como empresa. Um novo sócio fez vir um químico da Alemanha, além de técnicos e novas máquinas. Na mesma época, um grupo de pequenas cerâmicas decidiu registrou a marca Colombo e passou a vender louça inferior e mais barata. A Colombo teve de trocar de nome, virou São Zacarias, continuou ganhando prêmios, mas era preterida pelas louças estrangeiras. Só foi conhecer certa prosperidade durante a I Guerra Mundial, graças à dificuldade de importação, e quando fora arrendada pelo industrial Oto Brutski, do Rio Grande do Sul. Em 1926, a fábrica pegou fogo e foi fechada.
Em compensação, há a Oxford, fundada em 1953, a partir da compra da Cerâmica Santa Terezinha, que ficava no bairro de Oxford, em São Bento do Sul, Santa Catarina. Desde 1965, seus dirigentes começaram a apostar em produtos populares. Hoje, a empresa tem mais de mil empregados e produz quase 4 milhões de peças por mês, tendo contínuo lançamento de coleções, com motivos criados por designers brasileiros.
Muitas empresas fecharam, em diferentes períodos, por dificuldades financeiras. Não foi o caso da São João/Brennand, de Recife, fundada em 1947. Seu proprietário, Ricardo Brennand, amava o que fazia, colecionava porcelana chinesa e manteve a fábrica numa antiga usina de açúcar. Trouxe artesãos da manufatura portuguesa Vista Alegre, empregou mais de 400 funcionários, ex-agricultores e operários locais, e se esmerou na produção artesanal. A fábrica ia muito bem de finanças. Porém, com sua morte, em l968, os herdeiros decidiram fechá-la: acharam difícil administrar a empresa.
Uma história feliz é a da Schmidt, que passou por muitas dificuldades financeiras, especialmente a partir da abertura da economia realizada pelo governo Collor, em 1990. Sobreviveu depois de fechar duas marcas e de especializar suas unidades. Hoje, é a maior fábrica de porcelanas da América Latina e uma das maiores do mundo.
Já a Weiss, de São José dos Campos, não agüentou a pressão da concorrência estrangeira e acabou fechando em 1995, depois de 54 anos de existência. Segundo Carvalho, a empresa “nasceu da capacidade criativa de Inês Weiss, que havia aprendido técnicas de pintura na Fábrica Santo Eugênio, de sua família”. Desenvolveu pintura colorida e exuberante, que passou a ser vendida em São Paulo nos anos 1940. Em 1951, a Cerâmica Weiss já produzia 800 mil peças por mês. E, a partir dos anos 1960, instalou uma linha de produção industrial e passou a exportar. Esta é, provavelmente, uma das fábricas que os historiadores do design deverão ter grande interesse em pesquisar. Primeiro, porque Inês Weiss incorporou motivos próprios – flores, folhas e grafismos, com cores inusitadas – e também adaptou telas de pintores como Mondrian, Mirò e Picasso em suas peças. A Weiss também encomendou, nos anos 1960, algumas peças ao designer Livio Levi (e isso não está no livro de Fábio Carvalho, mas pode ser uma contribuição para o site), que desenhou formas de peças sem decoração, apenas brancas.
Outra fábrica que merece muita atenção é a paulista Santa Catharina, que existiu entre 1912 e 1927. Fundada por italianos, com maquinário alemão, teve produção diversificada, desde louças até velas de filtros, que forneceu ao Instituto Butantã. Nas peças que conhece, Carvalho identificou um tipo de pintura de flores, feita à mão livre, que parece grandes crisântemos. “Nessa produção, não encontro paralelo na louça européia, mas sim na decoração popular brasileira”, observa.
Carvalho quer continuar a pesquisa, ampliando as informações do site e lançando novos livros. Um de seus próximos passos será visitar os museus do Paraná. Ele não tem aquilo que se pode chamar de carreira retilínea. Formou-se em biologia marinha, fez pós-graduação em informática, depois incursionou pelas artes plásticas e pelo design visual e, agora, estuda música. Mas sua grande contribuição aos estudos brasileiros já está feita.
obs.: A matéria ficou muito boa, mas como sempre em matérias jornalísticas, há muita coisa "entre aspas", como se fosse uma afirmação minha, mas que eu não disse, ao menos não daquela forma, ou com aquelas palavras, ou ainda, com aquele sentido ou objetivo. Quem quiser ver a entrevista original, para comparar os resultados, basta clicar neste link. De toda forma, estou satisfeito com a matéria.
Porcelana brasileira, a saga de uma pesquisa
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entrevista para a revista "Florence"
1) Como você começou esse trabalho?
A coleção de louça nacional veio antes do site, que antecedeu por sua vez o livro.
No final de 2004 recebi de meus pais o apartamento no qual moramos por muitos anos, com tudo que tinha dentro, e isso incluia algumas poucas peças de porcelana, sendo que algumas ainda do enxoval de casamento deles. Para completar a decoração deste apartamento, comecei a comprar alguns objetos, móveis, acessórios, e o que talvez tenha sido o "virus" que me infectou pelo "vício" em caulim: meu primeiro prato de louça nacional, um grande prato de bolo em faiança da Cerâmica Matarazzo.
Logo as louças dominaram minha atenção e interesse, mas ainda comprava porcelana e faiança de várias nacionalidades. Como sempre gosto de saber bem com o que estou lidando, comecei a pesquisar as peças de louça que já tinha acumulado até então, e percebi que era bastante fácil encontrar informações sobre as peças importadas, mas praticamente NADA havia sobre a louça nacional. Fiquei muito frustrado com mais essa demonstração de falta de interesse pela nossa história.
Não me conformei com o fato, e decidi que eu iria mudar isso; eu ia sair em campo pesquisando a história de nossa indústria de louça, e tudo o que eu conseguisse colocaria em um site à disposição de todos os que como eu procurassem estas informações.
Depois de três anos de profunda pesquisa, achei que era o momento de editar um livro sobre o assunto, e daí surgiu o Guia de Marc as, que eu espero que seja apenas o primeiro de vários.
2) Quais as dificuldades que vem encontrando?
Felizmente não precisei procurar patrocínio ou apoio para editar o livro, pois decidi que seria melhor e mais rápido editá-lo por minha conta e risco.
Desta forma, as maiores dificuldades que encontrei ao longo desta pesquisa, além da quase inexistência de informações sobre o assunto, foram certos absurdos cometidos por nossas instuições públicas, que gastam dinheiro público para, em teoria, cuidar do acervo cultural (e neste caso, industrial também) do nosso país.
O absurdo é que as bibliotecas que possuem (ou possuiam, como vocês vão ver mais adiante) os acervos bibliográficos para a pesquisa do livro cometeram verdadeiros CRIMES contra o patrimônio público e a cultura nacional. Vejam só:
- A biblioteca do INPI do Rio de Janeiro (o INPI é a instituição responsável pelos registros de marca e de propriedade industrial, e que é a responsável por publicar uma revista (RPI) onde são publicados os registros) NÃO POSSUI em acervo a coleção completa da Revista de Propriedade Industrial. Na ouvidoria do INPI fui informado que "estão fazendo todo o esforço possível para completar este acervo, ou ao menos microfilmar (que coisa MODERNA!!!) os números faltantes, blá blá bláblá". Mas na verdade passado um ano que comecei a pesquisa, SEQUER UM NÚMERO À MAIS da RPI entrou no acervo. E eles tem microfilmado (segundo funcionários) praticamente todos os anos da revista. Mas o equipamento para VER os microfilmes está quebrado por falta de manutenção, e (também segundo funcionários) não será consertado. E o pior NÃO EMPRESTAM DE FORMA ALGUMA os microfilmes para que sejam consultados em outras bibliotecas!!! Em resumo: é um "arquivo morto".
- A Delegacia regional do INPI em SP SE DESFEZ POR COMPLETO do acervo da RPI deles, e me disseram que "estávamos sem espaço, e ninguém consultava isso mesmo...". ISSO PARA MIM É CRIME CONTRA O PATRIMÔNIO PÚBLICO!!!!
- E agora, o que para mim é o MAIOR ABSURDO de todos: A Biblioteca Nacional, uma das maiores do mundo, que deveria cuidar e preservar tudo que é publicado neste país, a ÚNICA (até onde eu já consegui verificar) biblioteca do país que tem TODAS as edições do D.O. COMPLETAS, com todas as seções e cadernos complementares, mandou TODO o seu acervo do Diário Oficial para um "anexo", que na verdade é um depósito no cais do porto (leia-se: UMIDADE), quase um purgatório, ou limbo, pois alguns funcionários da biblioteca já me afirmaram que essa história de que é este "anexo" está em reforma, e será "em breve" aberto ao público é mentira, que provavelmente o material que foi para lá (basicamente os periódicos de menor consulta, ou que estão microfilmados) nunca mais voltam. Já me alegaram que "outras bibliotecas" possuem o Diário Oficial, mas na verdade a ÚNICA biblioteca que possui a coleção completa da seção do D.O. que eu preciso (registro de marcas) é a biblioteca nacional.
3) como você consegue identificar cerâmicas não assinadas?
Infelizmente é praticamente impossível identificar uma peça que não possui marca gravada, pois mesmo os modelos e as decorações muitas vezes foram copiados ou usados por mais de uma fábrica.
4) Os acervos são, em maioria, particulares, não? existe algum órgão público que preserva esta memória?
Sim, a maior parte dos acervos são particulares, entretanto há algumas poucas instituições públicas, especialmente no interior de São Paulo, nas cidades que foram outrora importantes centros cerâmicos, que foram fundamentais nesta minha pesquisa, e às quais sou eternamente grato: Centro de Documentação Cel. João Pedro de Godoy Moreira (Pedreira, SP); Fundação Pró-
Memória de São Caetano (São Caetano, SP); Museu Barão de Mauá (Mauá, SP); Museu Histórico e da Porcelana de Pedreira (Pedreira, SP); Museu Histórico São Caetano (São Caetano, SP).
5) As louças brasileira têm muito de cópia. que produções não copiaram modelos estrangeiros?
É complicado afirmar que houve "cópia", como se não fossemos capazes de criar produtos originais, e estivéssemos condenados à submissão ao que vem de fora. O que acontece é que a indústria de louça ocidental começou na Europa, e que quase a totalidade das primeiras indústrias de louça no Brasil foram criadas por imigrantes europeus (portugueses, italianos e alemães, principalmente), muitos eram ceramistas em seus países de origem, ou foram lá buscar os técnicos quando da implantação das fábricas, uma vez que não havia mão-de-obra qualificada por aqui ainda.
Então não acho que podemos dizer que eles "copiavam" a louça européia, pois eles eram também europeus, e o que eles começaram a fazer aqui foi uma continuação do que aprenderam e já faziam em seus países. Então mais correto do que afirmar que nossa indústria "copiou", seria dizer que ela é descendente da indústria européia, uma continuação daquelas fábricas em nossas terras.
Mesmo assim, houve muita criação original por aqui, por exemplo, uma das primeiras fábricas de louça do Brasil, a Santa Catharina, fazia um tipo de pintura de flores à mão livre, que parecem grandes crisântemos, que não encontra paralelo na louça européia, mas sim na decoração popular brasileira. (se quiserem, posso fornecer fotos).
Na década de 1940 surge a fábrica Weiss, com seus modelos e decorações "delirantes", criados pela artista Inês Weiss, descendente de italianos, mas nascida e criada no Brasil. Na década de 1950 já era comum a criação de modelos e decorações inteiramente elaboradas por aqui, por artistas brasileiros, em muitas fábricas.
Cabe lembrar que desde que surgiram escolas de design em nossa país que o Brasil tem sido reconhecido e ganhador de diversos prêmios internacionais.
6) Qual é a sua formação? você é carioca? Quando se formou? Em que trabalha? Quando foi o casamento de seus pais?
Minha formação é muito eclética; me graduei em biologia marinha, na UFRJ, em seguida fiz uma pós-graduação em informática. Desta, passei para as artes plásticas e design, com cursos em várias instituições. Atualmente estudo música.
Sim, sou carioca, e há mais de 16 anos atuo como artista plástico e designer, principalmente para web, mas com vários trabalhos de artes gráficas também. O meu Guia de Marcas é um dos meus maiores projetos de artes gráficas!
Meus pais se casaram em 1963, e eu nasci em 1965.
7) O que significou sair a campo? Não havia bibliografia... não há registros em bibliotecas... como você conseguiu encontrar referências?
Como disse, havia POUCA bibliografia, e muita informação dispersa, fragmentada, que precisava ser reunida pedacinho por pedacinho, como no trabalho de um arqueólogo.
Sair a campo significa ir quase toda semana às feiras de usados, viajar para outras cidades, mergulhar na internet "raspando" o pouco que se encontra, geralmente de forma indireta (por exemplo, uma página sobre a imigração italiana cita, de passagem, as fábricas dos mais diversos produtos que imigrantes abriram; uma matéria sobre uma pessoa cita, de passagem, que num certo período esta trabalhou numa determinada fábrica; uma matéria sobre uma obra em uma certa rua comenta que ali, no passado, havia uma fábrica de louças; quase nunca o assunto central são as louças).
As "escavações" e recuperação foram em feiras, sites de leilão, coleções particulares, centros de documentação, e a própria web. Fiz várias entrevisas com fontes primárias, conversei com os poucos pesquisadores desta área que tive a sorte de conhecer. Os "sítios" onde encontrei mais informações qualificadas foram aqueles Museus e Centros de Documentação que citei no email anterior. Mas mesmo nestes as informações estão pouco trabalhadas, há apenas alguns registros de datação de algumas das (poucas) peças em seus acervos.
Para um dos assuntos centrais deste Guia, a datação de peças à partir das marcas de fabricantes gravadas nas peças, eu tive que reunir e organizar as informações que ia conseguindo sobre cada peça individual, e aos poucos consegui identificar para muitas marcas os períodos aproximados em que foram usadas. Para algumas marcas foi mais fácil, como a Porcelana Mauá, Schmidt, Real, pois estas produziram muitas peças comemorativas, que sempre trazem em si a data do evento comemorado, desta forma, datando com precisão as peças. Outras já foi um trabalho mais lento.
A fonte de pesquisa mais densa sobre datação, porém, foram os mais de sete meses comendo ácaro e poeira em algumas bibliotecas, consultando a Revista de Propriedade Intelectual, onde eram publicados os registros de marcas, modelos e decorações. A pesquisa nos catálogos telefônicos do Rio de Janeiro foi muito importante para localizar e recuperar os períodos de atividade das fábricas cariocas.
8) Os museus, que tal são? Existem pesquisadores nele ou você praticamente inaugurou esse campo?
Dos museus que conheci, os que mais me auxiliaram foram os das cidades do interior de SP, cidades que no passado foram grandes centros de produção de louças: Mauá, São Caetano e Pedreira. Ainda não tive a chance de conhecer os museus do Paraná, outro estado-chave na história desta indústria. Como todo museu brasileiro, estes museus lutam contra a falta de verbas, de funcionários qualificados, instalações adequadas. Mas mesmo assim, fazem um trabalho maravilhoso de conservação e acumulação de objetos, documentos, fotos.
9) Existem colecionadores de cerâmicas e porcelanas brasileiras?
Não entendi a pergunta. Se vc quer saber se há pessoas que colecionam louça brasileira de forma geral, ou seja, colecionam louça importada E brasileira, há provavelmente centenas de pessoas.
Se a pergunta era se existem colecionadores de louça nacional EXCLUSIVAMENTE, que colecionam APENAS louça brasileira, aí há bem menos. Aí sei de mim mesmo, um em Salvador, e um em Campinas. Mas claro que não tenho a pretensão de conhecer todos os colecionadores do país! Conheço também vários colecionadores que não colecionam apenas louça brasileira, mas que tem esta produção como principal tema de suas coleções, e muitos destes me afirmaram que passaram a gostar mais da louça brasileira, a perceber seu valor e qualidade, depois que conheceram o meu site, e a mim. Mas uma coisa que posso contar é que mais de um vendedor de antiguidades e/ou objetos usados já me garantiu que depois do trabalho do meu site, a venda de louça nacional aumentou muito.
10) Quando falo de cópia, gostei muito da sua ponderação, mas é que visitando seu site, achei uma molheira, essa sim, copiada do Henry van de Velde. Quando pensamos no trabalho do Eliseu Visconti, apesar de todo seu aprendizado com Eugène Grasset, ele firmou padrões próprios, introduzindo, inclusive, as flores de maracujá.
Certamente houve também alguma cópia em nossa indústria, mas se pensarmos que a indústria de louças européia quando surgiu, por muito tempo copiava a louça oriental, pois esta era a que o mercado consumidor queria. O mesmo ainda acontece por aqui, e era muito mais intenso em décadas anteriores. O brasileiro tem ainda esse "ranso" de colonizado, de achar que apenas o que vem de fora, ou que imita o que vem de fora, é que tem valor. Talvez seja interessante, para ilustrar a mentalidade de muitos que atuam neste segmento no Brasil, a leitura do meu artigo "Made in Brazil ?", que foi publicado na revista Retrô:
http://www.porcelanabrasil.com.br/p-20.htm
Mas o que acho importante é não pensar que houve apenas cópia, e para muitos casos, defendo a idéia de que esta indústria é descendente direta da indústria européia, e não apenas um simples caso de cópia, como coloquei no email anterior.
Infelizmente o Visconti, que tem projetos e algumas peças de cerâmica utilitária incrivelmente belas, nunca se dedicou a projetar para a indústria de forma intensiva, Até porque na época esta indústria estava apenas nascendo por aqui. Entretanto, ele chegou a criar peças para a fabrica de Cerâmica e Vidro Américo Ludolf, do Rio de Janeiro (vasos e cerâmicas decorados com elementos da flora brasileira, assim como cenas com figuras femininas de inspiração art nouveau).
11) Qual o tamanho da sua coleção? Ela é aberta à visitação?
Minha coleção já passa de 1.500 peças, e não é aberta a visitação, a não ser dos meus amigos, pois ela fica em meu apartamento.
12) como você avalia nossa atual indústria cerâmica (de louças)?
Não acho que tenho dados para fazer tal análise de forma precisa, uma vez que estudo e pesquiso a história, não lidando com os fatos mais recentes, nem mesmo da última década. Mas uma coisa é certa: desde a década de 1990 ela vem sofrendo a concorrência desleal da louça chinesa vagabunda, que inclusive já se comprovou ser tóxica em muitos casos, importada às toneladas.
13) Quando você fala das escolas de design e de seus prêmios a que está-se referindo exatamente?
Não estou falando especificamente de louça, mas de forma geral: móveis, luminárias, selos, embalagens, jóias, utilitários, objetos diversos, etc.
14) Que empresa ou empresas ou que designers você vê realizando trabalho sério nessa área?
Mais uma vez, não acompanho a produção atual desta indústria, mas recentemente vi uma fábrica que antes se dedicava à louça cerâmica mais popular e barata, mudar de identidade visual e linha de produção, para atingir um novo patamar de mercado; a Cerâmica Oxford. Estão produzindo peças com design simples e elegante, com decorações exuberantes e de grande apelo "brasileiro". A decoração é projeto de Marcelo Rosembaum:
http://www.oxford.ind.br/rosenbaum/pt/
O interessante é que esta coleção foi lançada aproximadamente um anos depois que publiquei um outro artigo na revista Retrô, sobre decoração Chintz, onde no final lamentava que ainda não havia sido aproveitada para a decoração de nossas louças a rica tradição do "Chitão" em nossa cultura, que já começava a ser explorada por designer estrangeiros.
http://www.porcelanabrasil.com.br/p-21.htm
15) Qual é a peça mais antiga de sua coleção?
uma malga da Fábrica Santa Catharina, da década de 1910.
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entrevista para a revista "Mão na Massa"
1. Porque criar um site com uma coleção de porcelanas?
A coleção veio antes do site. No final de 2004 recebi de meus pais o apartamento no qual moramos por muitos anos, com tudo que tinha dentro, e isso incluia algumas poucas peças de porcelana, sendo que algumas ainda do enxoval de casamento deles, que foi tragicamente destruído em um acidente quando eu ainda era criança. Os móveis da sala de jantar e de estar tinham um certo ar rústico, de fazenda, então reorganizei as salas de forma a criar um ambiente de acordo com este estilo, um pouco como a casa de uma avó do interior. E para completar esta decoração, fui pela primeira vez no Shopping dos Antiquários, aqui no Rio de Janeiro, em Copacabana. Lá comprei alguns objetos, móveis acessórios, e o que talvez tenha sido o "virus" que me infectou pelo "vício" em caulim: meu primeiro prato de louça nacional, um grande prato de bolo em faiança da Cerâmica Matarazzo.
Durante um certo tempo continuei comprando peças antigas para as salas, mas cada vez mais eram as louças que dominavam minha atenção e interesse, mas ainda comprava porcelana e faiança de várias nacionalidades. Como sempre gosto de saber bem com o que estou lidando, e detesto ficar na ignorância, comecei a pesquisar as peças de louça que já tinha acumulado, e percebi que era bastante fácil encontrar informações sobre as peças importadas, mas praticamente NADA havia sobre a louça nacional. Fiquei muito frustrado com mais essa demonstração de falta de interesse pela nossa história.
Não me conformei com o fato, e decidi que eu iria mudar isso, eu ia sair em campo pesquisando a história de nossa indústria de louça, e tudo o que eu conseguisse colocaria em um site à disposição de todos os que como eu procurassem estas informações.
2. O que mais te atraia na arte da pintura em porcelana?
Na verdade meu interesse é pela louça industrial, que já sai da fábrica decorada, e não a louça com decoração artística. Há muitos casos de louças pintadas à mão no site, mas isto era feito nas fábricas, ou seja, eram decorações em série, que seguiam um padrão pré-estabelecido por um decorador chefe.
3. Como foram feitas as pesquisas para montar o acervo, coletar e organizar todas as informações contidas no site.
A pesquisa teve início na própria internet, onde "escavei'" a rede atrás de informações sobre nossa indústria de louça. E como já mencionei, há muito pouco. Por incrível que pareça, uma grande fonte de pesquisa foram os sites de leilão, onde perturbei muita gente pedindo informações sobre as peças à venda. Mas pude perceber que o desconhecimento sobre o assunto era total. À medida em que meu site foi se tornando conhecido, apareceram outras pessoas interessadas em colaborar, principalmente com fotos de seus acervos, e algumas vezes, com informações sobre as peças.
A consulta às raras referências bibliográficas sobre louça brasileira também foram muito importantes para esta pesquisa. E não posso deixar de mencionar os Museus e Centros de Documentação das cidades do interior de São Paulo, onde se deu (e ainda hoje se dá) a maior parte da produção de louça em nosso país. Todas os livros e artigos consultados para o site constam da seção Bibliografia, para quem quiser fazer suas próprias pesquisas.
4. Se você não faz trabalhos em porcelana, porque criou o site? O que te atrai neste tipo de arte e objetos?
Acho que a primeira parte desta pergunta é uma repetição da pergunta no. 1
Acho que ninguém sabe como se instala em nós o vírus do vício em caulim, mas de toda forma, acho que as pessoas que tem paixão por antiguidades buscam de alguma forma se afastar um pouco da loucura e aceleração de nossa vida contemporêna, e ir buscar refúgio em memórias e na nostalgia de um tempo onde se podia viver mais lentamente, com mais prazer e menos stress, quando se havia tempo para admirar e encorporar no dia a dia um pouco de beleza e de arte.
5. A seu ver, qual a contribuição do site para a arte e cultura no Brasil?
Espero com meu site preencher parte de uma imensa lacuna, sobre a história da indústria de louças no Brasil, uma indústria que é uma das maiores do mundo, e que já foi ainda maior, em termos de variedade e qualidade técnica e artística. Hoje há poucos fabricantes, as decorações são sem imaginação, o design dos modelos são sem graças, não há um investimento artístico nas peças produzidas.
6. Como o mercado reage a esse trabalho exposto no site? Quantas consultas você obtém por dia, por semana ou por mês? Você tem este dado?
Me parece que o site foi muito bem recebido pelo mercado, uma vez que recebo muitas manifestações de aprovação e apreço pelo meu trabalho.
A média de visitas por dia está entre 40 e 70 pessoas, com as consultas de páginas variando de 300 a 600, o que dá uma média de mais de 8 páginas consultadas por pessoa, o que é um índice bastante significativo para internet. O site não conta com nenhum esquema especial de divulgação e propaganda, mas mesmo assim todos os dias surgem novos visitantes.
7. Qual a utilidade do site para quem trabalha com porcelana?
Agora é possível para quem compre e vende louça brasileira datar as peças em negociação com uma razoável precisão. Além disso, pode-se conhecer a história das fábricas, as principais pessoas por trás desta indústria, seus pioneiros, os processos produtivos das fábricas, entre tantas informações que antes estavam totalmente dispersas, e agora estão todas centralizadas em uma imensa "enciclopédia" sobre o assunto. Há ainda uma coleção de artigos técnicos de grande ajuda para quem quer saber um pouco mais à fundo os materiais e processos industriais envolvidos na fabricação de louça.
Já houve o caso também de uma artesã que produz miniaturas de porcelana que me disse usar o site com fonte de inspiração para suas miniaturas.
8. Quais suas dicas para aproveitarmos melhor o conteúdo do site? quais as áreas mais consultadas, o que o internauta procura ao acessar o site?
As duas formas mais simples de consultar o site é através da seção "Fábrica & Marcas", um compêndio das marcas usadas pelas fábricas brasileiras, que tem por objetivo maior auxiliar na datação de peças. Nas páginas desta seção também pode-se conhecer a história das fábricas de louça nacionais.
A outra seção abrangente a ser consultada é a "Modelos & Decorações", que é uma coleção de fotos de peças de louça nacional,e talvez seja a seção mais consultada, pela beleza das peças.
Quando a pessoa não faz a menor idéia de qual fábrica é a marca gravada na peça que deseja consultar, recomendo que procure o link "Todas as Marcas", nesta mesma página. Neste link há um resumo das marcas do principais fabricantes brasileiros.
Recomendo ainda que como "base" do conhecimento, sejam lidos os artigos técnicos, na seção "Artigos" e os artigos históricos, na seção "História". Estas duas seções são um pouco negligenciadas demais pelos visitantes. Acho que neste país há muito preguiça por aprender, pois a quase totalidade das consultas que recebo por email querem uma resposta imediata e direta.
9. As visitas ao site geram dúvidas no internauta? Quais as perguntas mais freqüentes?
As dúvidas mais freqüentes não são sobre o site, mas sobre identificação e datação de peças, e daí as encaminho para o Forum do site, que é o melhor local para publicar este tipo de dúvida, pois lá outras pessoas que saibam alguma coisa sobre uma determinada consulta também poderá ajudar, não ficando restrito apenas à mim e minha disponibilidade de tempo e informações. E a dúvida de um pode ser esclarecedora para muitos.
10. Quais seus objetivos ao criar o site?
Esta pergunta também se sobrepõe à pergunta no. 1.
11. Durante suas pesquisas, você se deparou com algumas curiosidades ou surpresas sobre as obras pesquisas, sobre o trabalho realizado no mundo e, principalmente, no Brasil?
Como o site é apenas sobre a indústria de louça brasileira, só pesquiso sobre as fábricas nacionais. Naturalmente já li muita coisa sobre a indústria estrangeira, mas apenas para satisfazer minha curiosidade cultural. Curiosidades é o que nã faltam, e estão nos artigos técnicos e históricos, e principalmente na história das fábricas em cada uma das páginas da seção "Fábrica & Marcas".
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