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13 de abril de 2009

Cerâmica, a História escrita em Barro


A cerâmica data dos primórdios dos tempos, quando o homem começou a utilizar o barro endurecido para produzir utilitários domésticos. Ela é a mais antiga de todas as indústrias, que substituiu a pedra trabalhada, objetos domésticos de madeira e vasilhas feitas de frutos ou cascas de árvore. Os estudos realizados com esses materiais coletados têm servido para contar a história da humanidade no tempo e no espaço, além de analisar as culturas que constituem verdadeiros monumentos da arqueologia, principalmente amazônicos, a exemplo da Marajó, rica em detalhes e morfologia; a extravagante e caprichosa cerâmica Maracá; a singela e trabalhada de Cunani e a mais bela, decorada e complexa de todas, a depositada à flor do solo em Santarém, no médio Rio Amazonas.


Todo este rico material da arte oleira constitui o mais importante acervo arqueológico da planície amazônica e guarda segredos de seus artesões em belas peças cronologicamente classificadas como proto-históricas, bastante decoradas, contendo pintura e desenhos, ornamentadas em relevo, muitas delas representando figuras humanas ou de animais. No terreno da arqueologia, não havia naquela época, nem atualmente, tribo que dominasse dons tão refinados da cerâmica produzida em qualidade, habilidade e perfeição por esses quatro apontados.

As tribos ceramistas brasileiras foram muitas, mas as de cerâmica artística bem poucas: só esses quatro grupos étnicos se dedicaram à cerâmica como arte. Na Amazônia, a mais interessante delas é a de Pascoal, uma minúscula ilha artificial construída no lago Arari, no centro da Ilha de Marajó, espécie de sentinela do estuário dos majestosos rios Amazonas e Pará. Nem Colombo nem Cabral ainda tinham chegado ao Novo Mundo quando diversas tribos se fixaram nestas áreas da Amazônia. Foi essa região de águas e florestas tropicais que recebeu povos migradores que portavam o dom da arte oleira vinda de terras distantes e que desfrutavam de uma cultura superlativa que os distinguiam dos demais indígenas brasileiros.


Singrando rios ou caminhando pelas matas e alagados, esses povos chegaram impelidos pela lei da sobrevivência até a Ilha de Marajó, onde se localizaram e produziram as mais belas peças arqueológicas brasileiras. Outro grupo fixou-se na região do Rio Tapajós, que abrigou a cultura tapajônica, a mais significativa cerâmica do país por sua modelagem marcante que lembra o estilo barroco e pela beleza de peças zoomorfas de feições ornamentais muito análogas à antiga arte chinesa. Uma outra etnia subiu a costa do norte do

Amazonas, indo situar-se no Rio Cunani, enquanto os demais artesões espraiaram-se pelo Rio Maracá, outro afluente do lado amapaense do Rio Amazonas, que não fazem parte das tradições ceramistas da Bacia Amazônica, sendo classificada como fase não filiada, mas hábeis oleiros por suas urnas funerárias de tipos tubulares, zoomorfas e antropomorfas.


Os quatro primeiros grupos foram os criadores da cerâmica oleira amazônica preocupada com a beleza, cuja evolução, capacidade sensorial, vibração com a natureza, expressão de sentimentos e emoções através da arte refletem sua criatividade. Na cerâmica, eles perenizaram as profundas impressões vindas do inconsciente, impregnadas pela bela e exótica natureza da Amazônia, que abrigou as culturas Marajoara e Tapajônica ou Santarém, as mais expressivas das Américas. A Arqueologia evita classificar os vestígios culturais encontrados às margens do Rio Tapajós, próximas à cidade de Santarém, Estado do Pará, como Tapajônicos, considera-os parte de um complexo cultural denominado Santarém ou Santareno, cuja cerâmica é representada por figuras humanas ou de animais, com ornamentos em relevo, pinturas e desenhos.

Apesar de não desfrutar do mesmo interesse dedicado à cultura Marajoara, por parte dos arqueólogos, a cerâmica Santarém é uma das mais bonitas da pré-história brasileira, provavelmente a mais antiga da Amazônia, resistindo a qualquer aculturamento ou influência estrangeira. Nela, evidencia-se a predileção pela fauna regional e pelo realismo animalista que a diferencia da cerâmica Marajoara, além de não possuir a tradição ceramista das urnas funerárias, pois seus mortos não eram enterrados: tinham os ossos moídos e postos no vinho, para serem bebidos pela tribo.


Outra diferença é a inexistência de estudos dividindo em fases culturais os povos que habitavam a região próxima à junção dos rios Tapajós e Amazonas, que dificulta conhecê-la melhor, principalmente suas controvertidas origens. É aí que está a maior curiosidade dessa bela cultura, visto a nomenclatura da cerâmica ser derivada dos índios Tapaius ou Tapajós, que nem possuíam tradição oleira artística.


A arqueóloga norte-americana Anna Roosevelt, professora da Universidade de Illinois, em Chicago, cujo trabalho revolucionou o conhecimento da pré-história amazônica, diz que está prestes a desvendar um dos maiores mistérios da Amazônia pré-cabralina, que é a identidade dos índios da cultura Santarém, apesar de parte do acervo encontra-se disperso pelo mundo inteiro e terem sido destruídos os sítios arqueológicos onde as escavações deveriam acontecer. Ela afirma que os povos que produziram as bonitas cerâmicas decoradas de Santarém, na pré-história, não são os mesmos Tapajós que habitavam a região cortada pelo rio do mesmo nome e que eles foram apenas dominadores desses hábeis artesãos que se desenvolveram na região do Médio Rio Amazonas até o ano 1.200 da Era Cristã. Em período que antecedeu à descoberta do Brasil, algumas das civilizações que habitaram a região amazônica têm origens que remontam ao ano 980 antes de Cristo, mas a arquóloga Anna Roosevelt afirma que a cerâmica do Pará tem cerca de oito mil anos e não quatro mil, como se acreditava até então.

Garante ainda que a cerâmica feita pelos povos que habitaram a Ilha de Marajó é originária da própria região e não de culturas colombianas andinas, conforme se acreditou durante muito tempo.


Outros pesquisadores, respaldados em descobertas arqueológicas, acreditam que bem antes de Orellana haver visitado os rios Amazonas e Tapajós, um povo dotado de avançada cultura e hábil na arte oleira habitava aquelas paragens. Esse povo dócil e criativo, segundo alguns historiadores, era supostamente descendente de Maias ou Incas, dado a semelhança de sua cerâmica e a preferência que tinha pelo cultivo do milho, inclusive para fabricação de bebidas, enquanto que outras tribos da região usavam comumente a mandioca.

Há quem afirme que os oleiros viveram na Ilha de Marajó até o ano 1.350 d.C., quando entraram culturalmente em processo de extinção. Os pesquisadores falam que ali existiram diferentes culturas, mas a que mais se sobressaiu foi a Marajoara, aquela que se destacou entre as cinco fases classificadas pelos arqueólogos: Ananatuba, Mangueiras, Formiga, Marajoara e Aruã. A fase Marajoara (400 a.C a 1.650 d.C.) é marcada por uma cerâmica altamente elaborada, cujos artesões também tornaram-se conhecidos por suas obras de engenharias executadas em terrenos alagados da ilha, criando elevações denominadas tesos ou sambaquis, em cima das quais construíram casas, cemitérios e oficinas de cerâmica. Esses aterros artificiais, em alguns casos, chegavam a atingir até duzentos metros de comprimento por 30 metros de largura e dez metros de altura. Os Marajoaras, que desapareceram em 1.350 d.C, cerca de um século e meio antes do descobrimento do Brasil, criaram e desenvolveram a técnica e a excisão (relevo) em suas peças cerâmicas, tanto para uso doméstico como ritualístico, sobressaindo entre elas as aplicadas com desenhos altamente elaborados e sofisticados, como tangas, urnas funerárias, vasos e estatuetas.


Já a cerâmica Maracá foi descoberta por Ferreira Pena, um dos fundadores do Museu Emílio Goeldi, num afluente do Rio Maracá na região da serra de Laranjal do Jari, no Amapá, em 1871. Foram urnas funerárias zoomórficas, antropozoomórficas e tubulares, quase todas encontradas com ossos ou fragmentos. As urnas não estavam enterradas e sim dispostas em certa ordem sobre o solo das grutas, com algumas pintadas e decoradas e outras destruídas por animais ou por raízes de árvores. Ferreira Pena diz que a origem dessa cerâmica é dos Caraíbas, enquanto Ladislau Neto afirma que ela descende de Marajoaras.

Certa feita, porém, os Tapaiús (mais tarde chamados Tapajós), tribo da nação Tapuiuçú, composta por bravos guerreiros e hábeis atiradores de flechas envenenadas, investiram contra esse misterioso povo ceramista e o dominou, tomando posse de suas terras. Dizem os estudiosos, que os Tapaiús afogavam as mulheres adúlteras e mumificavam seus parentes ilustres, mas não eram canibais e poupavam seus prisioneiros, deles aprendendo a arte de trabalhar com a argila cozida, tornando-se também oleiros.

A herança cultural do grupo que ali se fixou há cerca de mil anos antes de Cristo, após a conquista da Amazônia pelos portugueses, praticamente desapareceu até o século XIX, quando ela foi redescoberta e espalhada pelo mundo, principalmente em museus e mãos de colecionadores particulares. Esse legado pré-colombiano das margens do Rio Tapajós, na região do Médio Amazonas, contudo, se destaca pela presença de cariátides, que são figuras humanas que apóiam a parte superior do vaso, além de gargalos, ídolos e pratos. Sua cerâmica é tridimensional e trabalha somente com peças pequenas, como cachimbos e estatuetas de formas variadas, mas diferenciadas da Marajoara, pois apresentam maior realismo e reproduzem mais fielmente os seres humanos ou animais. Por outro lado, a cerâmica Santarena é mais refinada, decorada com elementos em relevo, que perdurou até a chegada dos lusitanos, produção e peculiaridades culturais desaparecidas por volta do século XVII.


Mas a peça cerâmica mais delicada e perfeita já encontrada na Amazônia foi sem dúvida alguma a tanga marajoara, objeto cultural de culto totêmico, uma utilidade feminina estética presumidamente para ser usada em cerimoniais religiosos, o que leva a crer que as mulheres desta tribo participavam de rituais, possivelmente no período do matriarcado interposto pela culturas andinas anteriores a da fase cacicazo. A beleza desta peça, usada possivelmente por sacerdotisas, revestida de uma mística, exercendo poder e fascinação sobre os deuses e homens, transcendia a questão do pudor, que não existia entre estes grupos. Na Índia, a tanga também era triangular, utilizada como oferenda a Ione, a deusa da Maternidade, enquanto que na Colômbia foram encontradas gravuras de tangas rudimentares em oferenda a Banchue, a Mãe dos Homens.

A cerâmica de Marajó, segundo alguns arqueologistas, procede da península de Iucatán, na América Central, enquanto a de Santarém se aproximava de certos modelos Maias. Já a de Cunani se assemelha às das tribos guaranis, que se acredita terem tido contato com os oleiros da região andina da Bolívia. A presença desta bela cerâmica, que os arqueólogos conseguiram salvar, revela não apenas o talento criador desses povos aborígenes, como documenta a sua inteligência motivada por símbolos indecifráveis e por sua superioridade social para a época.


Toda essa cerâmica produzida nestes três centros arqueológicos (Marajó, Amapá e Santarém) revelam sensíveis qualidades de sentimento artístico, dignos até hoje de admiração. A argila que se transformava em panelas, vestimentas, cachimbo, maracá ou outros objetos, não traduzia apenas o estado de espírito do oleiro, o sentimento isolado do artesão, mas o da nação a que pertencia. Além do artefato doméstico, revelador do lar, as peças decoradas revelam o estado religioso do modelador, seu folclore e o seu modo de caçar, pescar, navegar e lutar.


fonte: http://www.amazonview.com.br/noticia.php?cod=1504

7 comentários:

  1. O trabalho mais insano que os arqueólogos terão é de realmente estabelecer os locais onde estavam as nações indígenas ANTES do descobrimento e por volta deste, pois a partir de 1500 os indígenas migraram muito por conta dos invasores. Como a tal divisão tradicional (Tupi, Jê, Aruaque, Caraíba) só foi feita no séc. XIX - e por missão alemã, se não me engano - não se sabe direito onde eles estavam antes. E agora, então, com as terras indígenas demarcadas em um só lugar (e desde a reserva do Xingu acontecia isso), as culturas indígenas se embaralharam bastante... Bem... Espero não estar dizendo besteira...

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  2. Gostaria de saber se ha interesse em peças dos indios Marajoaras, pois tenho algumas peças encontradas no estado do Pará e tenho o interesse em vendê-las!!!
    Meu e-mal é leo.enfer@hotmail.com.
    Obrigado

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  3. Caro Leo,

    Talvez vc não saiba, mas negociar material arqueológio é um crime federal, com punição seríssima.

    Sugiro que vc procure um museu arqueológico ou etnográfico, e doe este material.

    abs

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  4. eu estou fazendo um trabalho sobre a cultura maracá e cunani e não acho nada que eu tô procurando, queria q vc fizesse um pequeno texto falando sobre essas duas culturas extintas, que são tão interessantes e que são povos da minha terra !!!
    obrigada !

    Ass. Amanda

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  5. Amanda,

    O texto acima não é meu; veja ao final o link para o site de origem.

    Eu nada entendo de culturas indígenas, sinto muito! Minha pesquisa é sobre a ind. de louça do século XX; o texto acima eu republiquei por mera curiosidade arqueológica.

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  6. olá encontrei no quinta da minha casa um parcela de porcelana e me chamou atenção o ano 1890 e está escrito oxford, será que pode me ajudar a descobri a história dela.

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    1. Olá, 1890 não é um ano, mas sim um código de datação, que significa que a peça foi fabricada em setembro de 1981. A Oxford só foi fundada em 1953. E não é porcelana, mas sim faiança.
      abraços

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