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4 de maio de 2010

só vemos aquilo para o qual nos preparamos para ver

trecho de APRESENTAÇÃO (OU POR UMA ARQUEOLOGIA URBANA ANTRÓPICA)
de: LOUÇA BRANCA PARA A PAULICÉIA: ARQUEOLOGIA HISTÓRICA DA FÁBRICA DE LOUÇAS SANTA CATHARINA / IRFM - SÃO PAULO E A PRODUÇÃO DA FAIANÇA FINA NACIONAL (1913 - 1937)
por: Rafael de Abreu e Souza
Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Arqueologia do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo, para obtenção do título de Mestre em Arqueologia.
São Paulo, 2010

disponível em: http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/71/71131/tde-24032010-170351

Pina-Cabral percebeu, em suas pesquisas, que havia algo na cerâmica popular portuguesa que ninguém percebera antes e que não constava em registros escritos nem em qualquer outra fonte: refere-se à vasta tradição local da indústria cerâmica de artefatos em forma de falo, em Portugal (1993). O antropólogo notou que muitos dos aspectos da cultura popular portuguesa não eram vistos pelos olhos dos pesquisadores e que este tipo de cerâmica foi ignorada, mesmo existindo há muito tempo.

São os olhos dos cientistas que vêem apenas aquilo que querem ver, já nos mostrava os Annales desde o final dos anos 1920 (BURKE 1986). Para a arqueologia, Gallay (2002) afirmou que “só vemos aquilo para o qual nos preparamos para ver”. Se não estamos, portanto, preparados para a louça brasileira, não a vemos. Fica a dúvida se a faiança fina nacional realmente não estava no sítio ou não foi diagnosticada por não estarmos preparados. (...)

Os questionamentos de Pina-Cabral nortearam algumas das questões da presente pesquisa em torno da louça em faiança fina, mais barata, mais popular, de fabricação brasileira, que está nos sítios arqueológicos, mas que é pouco estudada e pouco valorizada.

(...) Tenho a impressão, às vezes, de que há uma supervalorização da louça inglesa em detrimento das cerâmicas locais nas abordagens da Arqueologia Histórica (...). Há que se ter em mente que objetos e sujeitos históricos emergem de construções discursivas (RAGO 2004). Por isso este trabalho é uma proposta de mudança de escalas de observação, a fim de sugerir mudanças em interpretações (SASSAMAN 2005: 335).

No universo das cerâmicas de produção brasileira, ou de produção local, o que é, afinal, essa louça branca? O que é este artefato tão cotidiano, relativamente comum, que faz parte de nosso dia a dia e ao qual não prestamos muita atenção? (...) Para Orser, a análise destes artefatos “banais” propiciaria nossa entrada em um mundo fluido de significados, desafiaria interpretações mais simplificadas (2005). (...) A louça brasileira, banal e corriqueira nos sítios arqueológicos, sob outro prisma, pode mudar a interpretação sobre o contexto do sítio, sua cronologia e os hábitos e características daqueles que as utilizaram. Exemplo disso é a própria porcelana brasileira, muitas vezes descrita como um objeto não identificado, ou a faiança fina nacional que, apesar de difícil identificação, é freqüentemente tomada como estrangeira.

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