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23 de outubro de 2010

Louça fabricada no início do século em São Paulo tinha identidade própria

entrevista com Rafael Souza, Aqueólogo
fonte: http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia182/2010/10/23/diversaoearte,i=219524/PORCELANA+FABRICADA+NO+INICIO+DO+SECULO+NO+BRASIL+TINHA+IDENTIDADE+PROPRIA.shtml

Como surgiu o interesse pelo estudo das louças brasileiras?
A louça, enquanto artefato arqueológico, é um rico material que possibilita inúmeras reflexões em torno de seus usuários e fabricantes, em diferentes épocas. A louça branca é bastante estudada como objeto indicador de status socioeconômico e como referência cronológica. Desse modo, a não identificação dessa louça como brasileira nos sítios arqueológicos, mas como inglesa, por exemplo, poderia fazer com que a interpretação construída em torno da história das pessoas que ali moraram e as utilizaram recuasse no tempo, além de transformar “operários” em “barões”, uma vez que a louça, naquele período (primeiras décadas do século 20), passou a ser consumida por muitos grupos. A presença das fábricas, pelo menos em São Paulo, possibilitou diferentes formas de acesso a elas que não necessariamente pela compra em dinheiro. Por fim, meu interesse surgiu também por uma crítica à visão tradicional de que as cidades não possuem potencial arqueológico, por estarem “destruídas”. Esta é uma visão errônea. A cidade possui um enorme potencial arqueológico.

Quais são as principais diferenças entre a louça brasileira do início do século e a européia?
As principais diferenças relacionam-se especialmente aos atributos decorativos, isto é, padrões decorativos, técnicas de produção das decorações, e de modo mais amplo, os motivos e temas. É importante ter em mente que tanto os motivos como os temas nas louças dialogam com práticas e preferências de consumo dos consumidores, além do que foi pensado pelos proprietários da fábrica para a louça; deste modo, algumas louças brasileiras apresentam decorações em florais bastante específicos, com representações de margaridas e flores de maracujá, muitas vezes organizadas no campo decorativo segundo um esquema iconográfico bastante próprio. Por outro lado, existem alguns diferenciais ligados a tecnologia de produção das faianças finas brasileiras, como, por exemplo, a composição dos vidrados, a espessura das peças e as marcas do processo de esmaltação. Lembro que, do ponto de vista arqueológico, esta diferenciação é facilitada pelo contexto no qual estas louças são encontradas.

No material utilizado para a fabricação você também encontrou diferenças?
Sim. Temos de ter em mente, ao estudarmos um sistema de fábrica de louças brancas em faiança fina no Brasil, como a que estudei para São Paulo (a Fábrica de Louças Santa Catharina posterior IRFM – São Paulo), que não existe criação a partir do nada, mas, por outro lado, reduzir a cadeia de produção e as tecnologia usadas aqui a meras cópias de louças européias, é uma explicação demasiado simplista. Deste modo, nossas louças brancas sofrem, claro, inspiração de outras fabricações já estruturadas, mas possuímos especificidades e originalidades. Para a louça branca deste começo de século, somaram-se tecnologias de produção local a tecnologias estrangeiras, a partir de um corpo de trabalhadores tanto brasileiros como europeus, e até asiáticos, cada um trazendo sua contribuição. Os roletes, por exemplo, finas “tiras” de argila enroladas são muito característicos de produções cerâmicas no país, e foram muito encontrados no sítio arqueológico que estudei, especialmente ligados ao processo de fabricação e restauração das caixas refratárias (onde são postas as louças para ir para o forno). Por outro lado, foram encontradas trempes, pequenos pedestais com três pontas, tradicionais e recorrentes tanto em fábricas na Europa como em outros locais do mundo.

A que você atribuiria essa diferença? Porque mesmo em um período em que se copiava a cultura européia, o Brasil desenvolveu um aspecto tão pessoal?
Temos de ter em vista que a noção de “cópia” é um pouco mais complexa do que supomos geralmente. Primeiramente, a idéia de “ser Europa” ou “europeizar hábitos” era uma postura de parte das elites, no caso de São Paulo, e que apesar de bolarem políticas para tal, isso não quer dizer que famílias operárias quisessem adquirir hábitos de uma suposta “cultura européia”. As fábricas de louça brasileira tiveram de dialogar com os projetos de modernidade, do começo do século XX, de seus proprietários, imersos em contextos que visavam muitas vezes normatizações a fim de combater, por exemplo, em prol de uma idéia de “moderno”, aquilo que seria considerado tradicional, colonial, atrasado, rural, e com os consumidores destes artefatos, também grupos como operários, mamelucos, imigrantes, ex-escravos e demais populações que moravam agora na cidade de São Paulo, e que ainda sorviam caldos em tigelas e comiam em pratos sem o auxílio de talheres. O aspecto original desta louça brasileira é resultado de uma somatória de fatores e da dialógica que se montou entre produção e consumo; afinal, havia aqui uma demanda específica por louças e por padrões decorativos que dialogavam com a conjuntura na qual estavam imersas e que não era, obviamente, a européia.

Como surgiu o interesse por pesquisar esse tipo de produto?
O interesse em pesquisar este tipo de produto veio de minha inquietação em torno da ausência de uma bibliografia sobre a produção de louças brancas nacionais. A louça enquanto artefato arqueológico é um rico material que possibilita inúmeras reflexões em torno de seus usuários e fabricantes, em diferentes épocas. Enquanto objeto de estudo da Arqueologia Histórica, uma arqueologia mais focada em estudos de sítios arqueológicos cuja ocupação recua até a chegada dos europeus à América, a louça branca recorre bastante enquanto objeto indicador de status sócio-econômico e enquanto indicador cronológico. Busquei questionar estes paradigmas, estudando a louça branca brasileira, uma vez que a mesma foi produzida e consumida em larga escala no século XX, não sendo, portanto, um produto do século XIX, e seu barateamento, com a produção nacional, possibilitou que uma maior parcela da população acessasse este produto. Deste modo, a não identificação desta louça como brasileira nos sítios arqueológicos, mas como inglesa, por exemplo, poderia fazer com que a interpretação construída em torno da história das pessoas que ali moraram e as utilizaram, gerando aquele refugo que compõe o sítio arqueológico, recuasse no tempo, além de transformar “operários” em “barões”, uma vez que a louça, neste momento, passa a ser consumida por muitos grupos e a presença “física” das fábricas, pelo menos em São Paulo, possibilitou diferentes formas de acesso a elas que não necessariamente pela compra em dinheiro.

Tendo em vista uma postura teórica pós-colonialista em minha formação, busquei, de modo amplo, “descolonizar imaginários”, como disse um dos grandes intelectuais do século XX, Edward Said, também na arqueologia, questionando a supervalorização da louça inglesa em nossos olhares, sempre ressaltando o estrangeiro como melhor; quis questionar este paradigma de modernidade onde nos encaramos, ou somos vistos, como uma “cópia” de algo “original”, e, portanto, se cópia, mal feitos, porque nunca iguais ao original, sendo este original, em geral, a Europa. Assim, seria interessante buscar paradigmas latino-americanos que questionassem visões eurocêntricas como estas, implodindo conceitos de centro e periferia; a análise das louças brancas em faiança fina do sítio Petybon permitiu estas inferências.

Por fim, meu interesse surgiu também por uma crítica a uma visão bastante tradicional de que a cidade não possui potencial arqueológico, por estar “destruída” ou “antropizada”. Esta é uma visão errônea; a cidade possui um enorme potencial arqueológico, estudado pela Arqueologia Urbana e pela Arqueologia Histórica, e cada pequena parte sua é passível de leituras arqueológicas: tudo na cidade é antrópico e antropizado, e é isto o que a arqueologia estuda, basta que o pesquisador calibre seu olhar. A descoberta do sítio arqueológico Petybon trouxe a tona novamente esta discussão, pois no meio da zona metropolitana de São Paulo, no bairro da Lapa, estavam as toneladas de louças brancas compondo aterros e bolsões de descarte, junto aos alicerces enterrados de uma das primeiras fábricas de louça branca do país, de 1913.

Qual a importância de se estudar esse tipo de aspecto?
Estudar a originalidade das louças em faiança fina brasileira permitiu questionar discursos de uma São Paulo, do início do século XX, que se apresentava como moderna, urbanizada, “europeizada”, elitista, e que deixava de fora muitos de seus principais componentes, inclusive elaborando políticas que visavam apagar não era considerado moderno, ou seja, hábitos tidos como rurais, coloniais, etc. A partir disto a análise das louças brasileiras do sítio arqueológico Petybon, refletindo sobre práticas e hábitos, possibilitou o questionamento de teses baseadas em abordagens que pressupõem uma “ideologia dominante”, já que os grupos que não as “elites” também possuíam traços culturais próprios, não sendo/querendo ser “cópia” de uma elite ou “desvio” de um modelo original, que pressupõe uma visão rígida de cultura. Abordar tais aspectos foi questionar os paradigmas da modernidade latino-americana através da cultura material, o que é uma contribuição eminentemente arqueológica. Estudar a história da fabricação de louça branca no país foi também adentrar num assunto pouquíssimo estudado e trazer à tona questões relacionadas a setores da população que antes não consumiam louça branca, assim como seus hábitos culturais, práticas identitárias e mecanismos de ação e resistência, já que o modo como nos alimentamos é bastante devedor da conjuntura da qual viemos e na qual estamos imersos.

Deste modo, estudando as louças brancas de um sítio arqueológico específico em São Paulo busquei mostrar como elas dialogam com as concepções de modernidade vigentes na cidade de São Paulo no começo do século XX. A fábrica de louça Santa Catharina foi intermediária entre a intenção de produção das elites, os usos pretendidos dos objetos e as condições de consumo, os usos reais dos mesmos. A permanência das tigelas durante o período parece apontar para manutenção de identidades culturais de uma população com costumes rurais na cidade, apontando para a fragilidade da dicotomia campo-cidade. Foi possível ainda perceber como os discursos normativos e disciplinares de modernidade dialogam com o que a Arqueologia do século XIX e XX encontra na cultura material dos sítios arqueológicos. Tudo a partir da análise dos artefatos em louça branca.

Comente um pouco a diferença entre a pesquisa arqueológica recente e a da que estuda séculos distantes?
Em primeiro lugar, é importante dizer que a Arqueologia, se possui alguma data que determine o início de um escopo temporal que delimite sua área de atuação, como o surgimento do homem, não possui uma data final, ou seja, não existe “isto é arqueológico porque é de 1600 e isto não é arqueológico porque é de 1900”. Uma rodela de sandália de borracha feita por uma criança para servir de roda para um carrinho de lata de sardinha no sertão do nordeste em 2008, como já observei em diversos sítios arqueológicos históricos na região, é tão importante, relevante, e passível de uma reflexão como uma louça portuguesa do século XVII ou uma cerâmica marajoara. O que está em questão é a concepção de tempo intrínseca ao pesquisador que olha a cultura material e que a classifica como “muito moderna” ou “muito antiga”; não deveríamos pensar no que é recente ou não, mas sim no que é “arqueológico”, epistemologicamente.

Se a arqueologia estuda as expressões materiais da cultura, uma sandália de borracha é um artefato; se ela estuda o passado, um segundo atrás pode ser considerado passado. Assim como na história contemporânea, existe um certo receio, ainda, de realizar arqueologia de tempos mais recentes, como o século XX, talvez por um estranhamento, por um afastamento de temáticas de um período que envolve muitas questões de conflito, talvez por uma dificuldade de distanciamento daquela cultura material, pois, afinal, somos muito ligados a ela e nos enxergar sobre o olhar crítico de uma área científica é bastante difícil – muito mais do que nos pautarmos apenas no “outro cultural”. Mas isto está mudando, em todo o mundo, e temos de dialogar com a produção científica latino-americana e do restante do globo. Uma arqueologia do passado contemporâneo ou uma arqueologia do presente possibilita um diálogo não só mais intenso com as pessoas que utilizaram aqueles artefatos, mas com a riqueza do conhecimento êmico nas interpretações, possibilitando a geração de narrativas alternativas que dêem espaço a visões diferenciadas do passado que são tão “verdade” quanto aquelas geradas pelo arqueólogo, questionando duramente as supostas “objetividades” e “neutralidades” das pesquisas científicas. Inúmeras pesquisas, atualmente, seguem esta linha, como a arqueologia das ditaduras e dos regimes totalitários.

Ao estudar o começo do século XX, pude entrar de alguma forma num universo ainda pouco explorado, o do cotidiano opressor do sistema de fábrica, e as ações e re-ações dos trabalhadores que ali conviviam, assim como dialogar com uma sociedade tão diversa como a da São Paulo que se formava ali e da qual somos diretamente devedores atualmente. Uma arqueologia de um mundo recente lida com questões ainda muito vivas em nossas memórias como sistemas opressores de trabalho, guerras, conflitos, holocaustos, migrações e segregações ou marginalizações, processos dos quais somos, de um modo ou de outro, “filhos”, querendo ou não. É uma grande responsabilidade tentar trazer à tona problemáticas de exclusão, por exemplo, seja trabalhando com operários seja com sertanejos, mostrando modos de vida, especificidades, práticas e hábitos culturais de populações que muitas vezes não tem voz ou não aparecem nos registros escritos que tendem muito a ser “elitistas” do ponto de vista de uma elite letrada, ainda mais num país como o Brasil. De qualquer modo, acho que a Arqueologia deveria ser pensada para além de termos de “tempo”, pelo menos aquele tempo linear, e rumar a um tempo mais rizomático, na concepção deleuziana. Na verdade, a arqueologia dos séculos XX e XXI produzidos nestes séculos, mas lembro um pouco a máxima de Marc Bloch para a História e acredito que toda a arqueologia deveria ser vista como uma arqueologia do presente, pois convivemos contemporaneamente com o sítio arqueológico e sua cultura material, e tanto as questões que levamos para os artefatos como as formas de respondê-las são do nosso presente.

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