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14 de dezembro de 2010

Malgas (1a. parte)


malga média, de consumo individual
Fábrica de Louças Santa Catharina São Paulo - SP
louça de pó de pedra decoração à mão livre
1912+
coleção site Porcelana Brasil



Há nas formas de louça cerâmica uma que eu tenho imensa simpatia: a MALGA. Aqui no Brasil este termo não é muito utilizado, sendo que quase todas as pessoas usam o termo mais abrangente TIGELA para definir esta peça. Mesmo assim, prefiro usar o termo MALGA, pois além de ser um termo consagrada na Arqueologia Histórica brasileira, ele individualiza esta "tigela" em particular de tantos outros formatos que conhecemos por este nome.

A razão do meu interesse particular por esta peça é que ela sempre foi associada ao consumo popular, e também por ser um formato muito "primitivo", sem grandes sofisticações de design. Talvez seja uma das formas mais próximas às cabaças e cuias feitas com cascas de frutas e sementes pelos povos primitivos, antes destes descobrirem a cerâmica.



malga
Fábrica Saramenha Saramenha - MG
cerâmica decoração à mão livre
séc. XIX
coleção Paulo Vasconcelos, SP.
fonte: Arte Cerâmica no Brasil, de Pietro Maria Bardi, Ed. Banco Sudameris Brasil S.A., 1980.


Uma outra razão é que até eu começar a me interessar pela pesquisa de louças no Brasil, eu desconhecia este formato. Só me lembro de ter visto uma malga pela primeira vez, este "tigela" com pé, justamente quando comecei a ler bibliografia específica sobre cerâmica antiga.

E a provável razão disto é que no Brasil a malga está associada às fábricas cerâmicas pioneiras, que se instalaram no Paraná e São Paulo, quase sempre fundadas por imigrantes italianos. E estas peças eram fabricadas justamente para estes imigrantes, que tinham na malga uma peça muito versátil, pois na mesma malga onde se toma sopa, se bebe café com leite ou se faz a barba. O operário pobre italiano, por exemplo, parece ter sido um grande consumidor das malgas no período, segundo algumas fontes escritas, como relatos de viajante, e fontes iconográficas. Usavam-na
para os mais variados fins, já que seu design colabora para inseri-las nos mais diversos contextos de uso.



malga média, de consumo individual
Fábrica de Louças São Zacarias Colombo - PR
louça de pó de pedra sem decoração
1902/1909
coleção site Porcelana Brasil



Já aqui no Rio de Janeiro, que foi a capital do país até 1960, o que reinava era a louça mais sofisticada, importada. E a louça de produção nacional, mesmo quando esta ainda era vista apenas para consumo pelas pessoas menos endinheiradas, o formato inexistia, muito provavelmente pois não havia um mercado consumidor acostumado com esta peça.

Hoje em dia é muito incomum encontrar-se malgas em feiras de usados, brechós e antiquários cariocas. Quando aparecem, geralmente são em formato grande, que eram usadas como peça de apoio na cozinha para preparação de alimentos. Além disso, estas malgas normalmente apresentam decoração mais caprichada.

Já em feiras de São Paulo as malgas são bastante comuns, em diversos tamanhos (consta na bibliografia que existiram 13 tamanhos de malgas em produção no Brasil), e não é incomum que a decoração seja inexistente, ou bastante simples.

Atualização em 31/12/2010:
Conforme bem me lembrou a Ivete Ferreira em um comentário neste post, a origem da palavra "malga" provavelmente está ligada aos oleiros de Málaga (Espanha) que em meados do século XVI foram para Portugal trabalhar e ensinar o seu ofício.
Os tradicionais oleiros de portugal fabricavam telhas e ladrilhos de barro vermelho; os espanhóis de Málaga, que fabricavam louça e ladrinho de argila branca (faiança), ficaram conhecidos como "malegueiros".



Malga em faiança de bordo afilado e base de pé anelar com decoração floral a azul. Fabricação não identificado. Possivelmente, Lisboa, segunda metade do século XVIII. Encontrada em escavações no Largo Vitorino Damásio, Lisboa, 2003.
fonte: http://www.igespar.pt/media/uploads/revistaportuguesadearqueologia/9_2/4/19-p.369-400.pdf


A produção dos malegueiros tinha como diferencial da olaria tradicional em terracota, além do uso da argila branca, rica em caulim, queimarem suas peças duas vezes: uma para a aplicação do vidrado, e a segunda para a pintura sobre o vidrado, que é basicamente a técnica que se usa até hoje na produção de louça de faiança fina ou porcelana, sendo que às vezes há 3 ou até mesmo 4 queimas, dependendo da complexidade da decoração.



Atualização em 05/01/2011:
Ivete Ferreira, leitora de Portugal, muito generosamente me enviou fotos de belíssimas malgas antigas de sua coleção, produzidas, segunda a Ivete, no norte daquele país. Eu selecionei as duas abaixo, por terem maior relação com as peças brasileiras apresentadas neste post:


Diãmetro: 24,5 cm; Altura: 13 cm, pintada à mão livre em rica policromia


Diâmetro: 26,5 cm; Altura: 14 cm, decorada com o uso de estanhola



Então, vamos agora às malgas brasileiras!


malga
Fábrica de Louças Evaristo Baggio Curitiba - PR
louça de pó de pedra decoração com estanhola
-1944/1958+



malga grande
Fábrica de Louças Santa Catharina São Paulo - SP
louça de pó de pedra decoração à mão livre
1921+
coleção Washington Marcondes



malga média, de consumo individual
Fábrica de Louças Santa Catharina São Paulo - SP
louça de pó de pedra decoração com filetes
1921+
coleção site Porcelana Brasil




malga média
C. S. E. Mauá localização desconhecida, provavelmente Mauá - SP
louça de pó de pedra decoração com estanhola
datação desconhecida
coleção Washington Marcondes




malga diminuta, do tamanho de uma xícara de café
Fábrica de Louças M.B.L. São Caetano do Sul - SP
louça de pó de pedra decoração com estanhola
1947/1952
coleção site Porcelana Brasil




malga grande
Cia. Paulista de Louças Céramus São Paulo - SP
louça de pó de pedra decoração com estanhola
1938+




malga bastante pequena, do tamanho de uma xícara de chá
Louças Cláudia - Cerâmica Matarazzo São Caetano do Sul - SP
louça de pó de pedra sem decoração
circa 1935/déc. 1940
coleção site Porcelana Brasil



malga pequena, de consumo individual
Cerâmica Mauá Mauá - SP
louça de pó de pedra decoração com filetes
c. déc. 1950
coleção site Porcelana Brasil




malga média
Cerâmica Itabrasil S ão Caetano do Sul - SP
louça de pó de pedra decoração com decalques e detalhes em ouro
1945/1951+
coleção Washington Marcondes



malga grande
Cia. Paulista de Louças Céramus São Paulo - SP
louça de pó de pedra decoração com estanhola
1938+
coleção Washington Marcondes




malga grande
Cia. Paulista de Louças Céramus S ão Paulo - SP
louça de pó de pedra decoração à mão livre
1933/1938




malga grande
Cerâmica Aurora Campo Largo - PR
louça de pó de pedra decoração com estanhola
1944/1964+




malga grande
Fábrica de Louças Santa Carolina Mogy das Cruzes - SP
louça de pó de pedra decoração com estanhola
circa 1943
coleção Washington Marcondes




malga grande
Fábrica de Louça de Pó de Pedra A.R. & I. Pedreira - SP
louça de pó de pedra decoração com estanhola
1925+
coleção Washington Marcondes



malga grande
Fábrica de Louças Santa Cruz Taubaté - SP
louça de pó de pedra sem decoração
? 1951 / 1969
coleção site Porcelana Brasil




malga grande
Cia. Paulista de Louças Céramus São Paulo - SP
louça de pó de pedra decoração com estanhola
1933/1938
coleção Washington Marcondes



malga grande
Fábrica de Louças Paulista Mauá - SP
louça de pó de pedra decoração com estampagem e detalhes complementares à mão livre
1933/1937
coleção site Porcelana Brasil




malga grande
Cerâmica Mauá Mauá - SP
louça de pó de pedra decoração com decalques e aerógrafo
c. déc. 1950
coleção site Porcelana Brasil




malga média, de consumo individual
Fábrica de Louças Luso Mauá - SP
louça de pó de pedra decoração com estanhola
1926/1953
coleção site Porcelana Brasil

malga média, Luso



malga pequena, do tamanho de uma xícara de chá
Fábrica de Louças Luso Mauá - SP
louça de pó de pedra decoração com estanhola
1926/1953
coleção site Porcelana Brasil




malga diminuta, do tamanho de uma xícara de café
Fábrica de Louças Santo Eugênio São José dos Campos - SP
louça de pó de pedra decoração com estanhola
1938/1957
coleção site Porcelana Brasil

15 comentários:

  1. Bem interessante, Fábio, eu não sabia da versatilidade dessas peças! Obrigado pela aula. Abc. Felicio Cyrino

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  2. Algumas destas malgas são absolutamente fantásticas, e em nada ficam a dever às suas congéneres portuguesas! Não conhecia e acho-as lindíssimas!
    Manel

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  3. Olá Felício, meu caro amigo!
    Pois é, eu adoro as malgas, por serem um formato quase primitivo, por sua simplicidade e versatilidade.
    abraços!

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  4. Olá Manel!
    Quanta honra em receber sua visita por aqui.
    Eu ainda estou separando mais um lote de malgas brasileiras para publicar aqui.
    abraços
    Fábio

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  5. Eu sou visitante assíduo deste seu sítio, apesar de raro lhe deixar comentário.
    Sou muito curioso do que se vai fazendo desse lado do Atlântico e nada melhor do que visitar este seu site para me colocar ao corrente, pois, além de ser uma pessoa de uma cultura eclética, o Fábio sabe perfeitamente do que fala, e o saber é algo que me fascina, venha ele donde vier, por isso ... vai-me ter a frequentar este seu interessante sítio enquanto me for possível e me deixar :)
    Apesar desta época natalícia me ser indiferente, não quero deixar de lhe desejar muita tranquilidde para que passe este período junto das pessoas que realmente lhe são importantes
    Manel

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  6. Caro Fábio

    O Manel já me tinha falado das suas malgas de uma beleza muito singela. De facto, à primeira vista podiam ser produções portuguesas do príncipio do século XX.

    Também não canso de admirar o trabalho exaustivo que o Fábio faz das produções brasileiras.

    Abraços e boas festas da velha cidade de Lisboa

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  7. Caro Manel,
    Muito obrigado por suas palavras e visitas! Venha sempre mesmo. Fico feliz.
    abs
    Fábio

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  8. Olá Luis!
    Eu sou fascinado com malgas, pois como disse no post, eram coisas desconhecidas para mim, até que comecei a colecionar e estudar as louças.
    E quanto mais "popular", mais eu gosto. PEna que por aqui a pintura à mão era coisa mais rara, dada a época em que foram fabricadas, e seguiam praticamente um mesmo estilo floral. Nada de cenas, paisagens, etc.
    Já fiz um segundo post com malgas, e em breve farei o terceiro e último.
    Depois pretendo expandir o post sobre bules, outra peça que sou apaixonado, assim como as sopeiras.
    abs!
    Fábio

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  9. Deparei com o seu blog sobre malgas e gostei bastante de o ler. Envio-lhe uma achega que talvez ajude a compreender a origem da palavra. Reza a tradição que pode estar relacionada com os oleiros de Málaga(Espanha)que,em meados do século XVI, vieram para Lisboa ensinar o seu ofício. Eram os malegueiros, cujo primeiro Regimento data de 1556. Tinham organização e juízes próprios. Bastião Fernandes, com carta de examinação datada de 17 de janeiro de 1559, foi considerado "auto e suficiete pelos juizes anDre djz e antº esteves, malegros". A transcrição está conforme o documento original.

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  10. Olá "Anônimo", obrigado pela visita.
    Sim, você está certo; eu deveria ter colocado esta informação no post, pois no curso de arqueologia que fiz há uns anos me foi contada a mesma história para a origem da palavra "malga".
    Vou atualizar o post.
    abraços e ótimo 2011!
    Fábio

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  11. Ivete Ferreira1/1/11 08:37

    Olá Fábio

    Já deixei de ser anónima. Gosto muito de faiança, principalmente a Faiança Ratinha,de Coimbra, produzida entre os séculos XIX e parte do XX. Também tenho um pequeno número de malgas e algumas outras peças de fábricas portuguesas.
    Votos de um Bom 2011.

    Ivete

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  12. Olá Ivete!
    Como é bom saber com quem estamos falando, mesmo que seja apenas o nome da pessoa. Assim, inclusive, posso acertar o post, e incluir seu nome na atualização consequente da sua dica.

    Sobre faiança de Coimbra, ontem mesmo por acaso achei um pequeno e simpático catálogo em PDF de uma exposição de 2008 no Museu Nacional de Machado de Castro sobre Cerâmica de Coimbra:

    http://mnmachadodecastro.imc-ip.pt/Data/Documents/cat%C3%A1logo%C2%AECer%C3%A2mica2.pdf

    abraços e ótimo 2011!
    Fábio

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  13. Ivete Ferreira1/1/11 13:00

    Olá Fábio
    Agradeço a sua simpatia em ter colocado o meu nome na informação sobre os malegueiros.Acerca da Exposição de Faiança de Coimbra do Museu Machado de Castro tenho a dizer-lhe que existe o livro "Cerâmica de Coimbra", publicado na mesma altura.
    Gostava de lhe enviar uma fotografia de uma das minhas malgas (também lhes chamamos tigelas), mas não sei bem como o fazer.

    Cumprimentos
    Ivete

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  14. Olá Ivete,

    Pode mandar a foto para

    PorcelanaBrasil@gmail.com

    obrigado!

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  15. Postagem atualizada, com 2 fotos de malgas portuguesas generosamente enviadas por Ivete Ferreira.

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