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isso sim é coleção bem arrumada...


Meu sonho é um dia poder organizar e exibir minha coleção de louça que nem este museu de xícaras comerciais, da Santa Clara!







http://www.santaclara.com.br/bn_conteudo_secao.asp?opr=71&opr2=93&opr3=119

propagandas

Encerrando a série sobre os documentos que auxiliam os pesquisadores de louça, agora é a vez das propagandas.

Por acaso estou lendo um livro da Sotheby´s sobre história da porcelana no mundo (entenda-se mundo por China, Japão e alguns outros países orientais, Europa Central -- Portugal, que teve, e ainda tem, importantes fábricas, ficou de fora -- e Estados Unidos), mais especificamente sobre as origens das indústrias de porcelana, e em vários pontos deste livro fica muito claro a importância dos anúncios impressos em jornais e revistas, e também na mídia especializada, para os pesquisadores que escreveram este livro. Há fábricas que são descritas sobre as quais não se conhece sequer uma peça "ao vivo", segundo contam, mas que muito da história, e dos modelos fabricados, pode ser recuperada através de anúncios.

E como pode-se ver nas ilustrações abaixo, estes anúncios, desde o século 18, eram fartamente ilustrados com os produtos das fábricas. E isto parece muito natural, até mesmo óbvio, pois se você quer vender seu produto, precisa mostrá-lo!

Já aqui em nosso país, onde a indústria de louça só decolou no século 20, com toda uma tecnologia gráfica já mais desenvolvida, propaganda de louça, ainda mais ilustrada (embora de forma pobre), até meados dos anos 1950, só mesmo de louça importada, de lojas de presentes finos.

Pelo o que eu pude analisar nos catálogos telefônicos do Rio de Janeiro, e algumas conversas que tive com um mestrando de arqueologia da USP, que faz sua tese a partir das escavações no sítio de uma fábrica pioneira de SP, ficou claro para mim que por muito tempo a louça produzida no Brasil não era assunto para se ter orgulho. Ela era vendida em bazares de materiais de construção ou de artigos para limpeza e manutenção do lar. Lojas de classe média para cima vendiam louça importada. Nossa louça só recebe autorização para frequentar as lojas mais sofisticadas na segunda metade do século 20, provavelmente via os grandes magazines, antecessores dos shopping centers, que começam a se tornar comuns.

Isto não é surpresa para mim, pois até mesmo hoje em dia é nossa "mania de colonizado" só dar valor ao que vem de fora. Parece que sempre temos uma certa vergonha da produção nacional, mesmo quando esta é de padrão igual ou até mesmo superior da estrangeira. Para nos sentirmos "alguém de valor" não importam nossos pensamentos e atitudes, mas sim os sinais de status com os quais podemos recobrir nossos corpos e lares.

O infeliz resultado disto tudo é que os anúncios são raros (mesmo depois da déc. 1950 não são muito frequentes), e desta forma se perdeu mais uma oportunidade de documentar e preservar a história desta indústria.

Abaixo, alguns exemplos de anúncios ingleses e brasileiros, em ordem cronológica.



John Tams, Inglaterra, 1886, Pottery Gazette



Brownfield & Sons, Inglaterra, 1886, Pottery Gazette



R Floyd & Sons, Inglaterra, 1924, Cox's Potteries Annual Year Book


Johnson Brothers, Inglaterra, 1955, Prestige and Progress
A Survey of Industrial North Staffordshire



Porcelana Steatita, 1956, Páginas Amarelas - Paraná



Cerâmica Mauá, 1956, Anuário de Mauá


Porcelana Mauá, 1957, jornal Estado de São Paulo


Porcelana Rio Branco, 1965, Páginas Amarelas do Rio de Janeiro


Porcelana Renner, 1969, revista Seleções


Cerâmica Porto Ferreira, 1975, revista Manchete


Porcelana Schmidt, 1989, revista Mauá - Informe Especial

cerâmica, faiança e porcelana e a arte contemporânea brasileira

publicado originalmente em 26/01/2008

reeditado em 10/07/2009

Ontem eu estava numa festa de aniversário de um amigo artista plástico, e num dado momento surgiu como assunto uma pesquisa de mestrado sobre Celeida Tostes, incrível artista brasileira já falecida, que usava a cerâmica vermelha como veículo de seu trabalho, e que por causa do material usado em sua obra, sofreu muito preconceito ao longo da carreira.





Passagem, 1979
Celeida Tostes


Isso nos levou ao trabalho de outro amigo nosso (Tiago Carneiro da Cunha), escultor, que está fazendo peças em faiança, moldadas e pintadas à mão livre, muito interessantes.


Tiago Carneiro da Cunha, 2007
'cliche derretendo', faianca policromada



Tiago Carneiro da Cunha, 2007
'auto-retrato afundando', faianca policromada



E eu levantei como assunto a recente "moda" de trabalhos de arte contemporânea brasileira com porcelana.

De uns 4 anos para cá, tem sido a cada dia mais comum trabalhos de artistas plásticos contemporâneos brasileiros que se usam da procelana ou faiança como meio.

Quando comecei a colecionar louça como hobbie, em 2005, comecei também a ter que lidar com os primeiros "acidentes de coleção": louças compradas pela internet que me chegaram quebradas, e peças que eu acidentalmente quebrei. Aqueles cacos de louça me pareceram sedutores demais; pensei em transformá-los em um trabalho de arte, fazendo algum tipo de assemblage com os cacos.

Pois foi exatamente quando me deparei com peças de Jorge Barrão, que iam muito além do que eu havia imaginado em meu projeto, eram muito mais "potentes", pertinentes e oportunas, principalmente sendo do Barrão. Então engavetei minha idéia. Barrão criou peças grandes à partir de colagem de cacos de porcelana, criando formas quase abstratas e muito estranhas (num bom sentido!).

Jorge Barrão, 2006






Jorge Barrão, 2009 (?)


E foi aí que comecei a perceber esta "onda" de trabalhos em porcelana. Começaram a "pipocar" outros trabalhos em porcelana, de várias formas: alguns moldaram o biscuit de porcelana para registrar partes de seu corpo, outros fizeram pintura em porcelana, tanto manual quanto industrial; alguns produziram esculturas em porcelana, outros usaram peças inteiras de porcelana, como por exemplo, uma xícara de chá e seu pires, em situações de instalação, e assim por diante.


Tatiana Grimberg, 2005; Sem título - O trabalho possui várias peças feitas com impressão
de partes do corpo em biscuit de porcelana

Teve até mesmo um "seguidor" (imitador ?) do Barrão, fabricando "monstros" abstratos com colagem de cacos de louça. O mais absurdo foi ver em uma das edições da exposição "Aquisições Recentes" da coleção Gilberto Chateaubriand, no MAM-RJ, quase lado a lado, um novo e fantástico trabalho de Barrão com pedaços de peças de porcelana, neste caso bibelots, e um outro trabalho, uma cópia muito mal feita e equivocada do trabalho de Barrão. Não entendo o que leva o Chateaubriand a querer comprar a cópia ordinária de um trabalho tão bom que ele já possui! Em tempo: este artista de obras "genéricas" em anos anteriores fazia uma pintura de azulejos que obviamente era um "remix pop" das pinturas da Adriana Varejão. Sintomático.

Isso me faz pensar em como o fraco mercado de arte brasileira é orientado por "modas", e como infelizmente vários artistas se deixam levar por isso. Ao invés do trabalho e das necessidades expressivas de cada artista ditar qual material, maneira ou forma um certo trabalho deve se dar, muitos artistas (fracos e sem personalidade) se orientam pelo que "deu certo". E esquecem que um trabalho de arte antes de mais nada deve representar uma verdade pessoal, profunda, refletida, comprometida, pois só assim um trabalho será autêntico, sincero e potente, como qualquer manifestação artística.

Como já disse antes, o trabalho do Barrão é bom, e faz total sentido ter sido feito por ele, visto sua história e produção. O trabalho do Tiago é uma consequência natural de todo um processo anterior em escultura, uma hora ele chegaria mesmo à cerâmica. E como eles, há vários outros artistas que realizaram bons trabalhos com porcelana ou cerâmica.

Um que me lembro em particular e que gostei foi o projeto original de João Modé, em 2003 para a exposição "Grande Orlândia", num sobrado em São Cristóvão, vizinho da Linha Vermelha. O João Modé pretendia transformar as vigas de metal do viaduto da Linha Vermelha, que passam coladas às janelas dos sobrados, em prateleiras para acomodar objetos de porcelana. Imaginem o que aconteceria quando os carros passassem na pista da linha vermelha... O puro contraste daquela viga pesada e bruta com os frágeis objetos de porcelana já seria incrível em si. Infelizmente, por várias questões de segurança, o projeto não pode ir em frente.

Há também a louça "decorada" por vermes e insetos negros de Regina Silveira, uma artista da qual não há como ter dúvidas de sua rica e profunda pesquisa plástica. Eu queria MUITO ter algumas destas peças dela. De preferência as mais saturadas de vermes e insetos (infelizmente não encontrei foto).

Mas há também muita bobagem, muita gratuidade, em função de uma tentaviva desesperada de fazer parte da "onda mais quente do momento", para rapidamente ser aceito e pertencer a um circuito de arte, cada dia mais superficial e orientado pelo mercado e pelo capital.

Por conta deste longo papo de ontem, resolvi pesquisar algumas imagens sobre esse assunto para colocar aqui no blog, independente se eu acho que são trabalho interessantes, legítimos, que fazem sentido na produção do artista, ou não. Infelizmente não consegui encontrar muitos exemplos, mas caso encontre outros futuramente, incluo.


Regina Silveira, 1999
Prato; porcelana sobrevidrada, 28 cm (d)



Carlito Carvalhosa, 2000
EKWC, Países Baixos
Porcelana
40 x 29 x 28 cm


catálogos de fabricante


Hoje o assunto é outro documento, ainda mais desesperadoramente raro em nosso país: catálogos de fabricantes. Estes catálogos eram material de trabalho dos vendedores das fábricas, que iam às lojas e revendedores oferecer as novas linhas produzidas.

Naturalmente era um material que ficava para cá e para lá o tempo todo, provavelmente sofrendo danos pelo intenso manuseio. Ainda por cima, quando uma nova edição do catálogo era lançada, o destino certo do catálogo anterior era o... lixo!

Não digo isso para culpar os vendedores, pois estes não eram os responsáveis pela preservação da história das fábricas. Culpo as fábricas, os empresários de visão curta, pensamento ligado apenas no (lucro) imediato.

Qual teria sido o problema de guardar ao menos uma cópia de cada catálogo editado? Estes poderiam ser importantes não apenas para os fanáticos do futuro (como eu), mas também às fábricas, por exemplo, no caso de reedições de linhas.

Voltando aos fanáticos: que maravilha seria ter cada catálogo de cada fábrica preservado em alguma biblioteca de museu ou centro de decoumentação! Que facilidade datar e identificar as peças de louça! Mas, temos que voltar à realidade. Não foi assim que aconteceu.

Abaixo, alguns raros exemplos de catálogos de fabricantes:



Adelinas, 1935
(acervo fundação Pró-Memória, São Caetano - SP)



litografia do catálogo da exposição internacional do RJ de 1861,
reproduzindo peças da Fábrica de Francisco Esberard (RJ)



esta página não é de um catálogo, mas sim de um anuário,
o "Anuário de Mauá 1956" (Mauá - SP)
(acervo Museu Barão de Mauá, Mauá - SP)



etiqueta de propaganda da fábrica São Zacarias, 1902/1909 (Colombo - PR)


detalhe da parte inferior da etiqueta



foto para página de catálogo da Porcellana Mauá, data provável 1954
(acervo Museu Barão de Mauá, Mauá - SP)



folheto de propaganda da Cerâmica Weiss, data provável déc. 1990
(cortesia Luiz Mott, Salvador - BA)



hoje em dia: página de folheto promocional da Porcelana Schmidt (2004)

padrões decorativos


Um outro documento importantíssimo para o pesquisador sério de porcelana e faiança, que infelizmente é raríssimo aqui no Brasil, são os livros de registro de padrões decorativos.

Em países estrangeiros, onde o cuidado com a preservação da história é uma prática mais comum, é comum encontrar verdadeiras bibliotecas de livros com o registro de padrões decorativos.



página de livro de padrões da fábrica Derby, de 1780 a 1810

Uma maravilhosa e rara excessão são 35 cartelas da Porcellana Mauá, usadas pelo setor de decoração desta fábrica como orientação para os artistas, que fazem parte do acervo do Museu Barão de Mauá, da cidade de Mauá, SP. Estas cartelas foram doadas em 2002 pela família Kojima, da Kojima Porcelanas.



cartela com testes de decoração da Porcellana Mauá

Infelizmente, parece que nem mesmo o cuidado de registrar suas decorações no Instituto Nacional de Propriedade Industrial nossas fábricas tiveram, pois já pesquisei 3 décadas de registros, e não passam de 5 os padrões decorativos que pude recuperar.





padrão "Hortência", registrado pela Adelinas em 1939


Mesmo as fábricas ainda em funcionamento pouco guardaram de sua história. A Porcelana Schmidt, por exemplo, possui apenas as referências decorativas da década de 1980 até os dias de hoje.

Enquanto isso, uma fábrica como a Spode, na Inglaterra, possui os livros dos seus padrões decorativos desde 1794, quando a prática do registro em livros foi introduzida nesta fábrica.


padrões decorativos de 1853, fábrica Spode

A biblioteca da Spode contém mais de 70.000 padrões registrados. Mas o acervo desta fábrica não é apenas de livros com padrões decorativos. Eles possuem também nada menos do que 25.000 placas de cobre (usadas na impressão dos transfers) e moldes originais de suas peças.

processos decorativos

Eu hoje por acaso passei pelo verbete "Porcelana" da Wikipédia, e resolvi melhorar a seção "decoração", que estava muito incompleta. Como nunca se sabe o que vai acontecer a um verbete naquela enciclopédia multi-colaborativa, resolvi deixar aqui no blog a minha versão para esta seção do verbete:


A decoração da porcelana é feita de diversas formas: com o uso de pintura à mão livre, uso de estanhola (molde vazado), a aplicação de decalque, transfer e a de filetes (ou listel). Algumas peças recebem mais de um processo durante sua decoração.

Como o processo de decoração feito com pintura manual demanda muitos artesãos qualificados, e maior tempo de execução, não é mais praticado em larga escala, exceto por algumas poucas fábricas, que tem na decoração manual o seu diferencial.




xícara de chá da Manufatura Nacional de Porcelana,
inteiramente pintada à mão

A estanhola nada mais é que um molde vazado, que serve de máscara para a aplicação da tinta à mão, com uso de pincel ou aerógrafo.


caixa da Cerâmica Mauá, decorada com o uso de estanhola

O decalque é um adesivo impresso em gráficas, em um papel adesivo especial, que é removidos do suporte quando mergulhado em água, e é então aplicado na peças de porcelana. Após ser colocado na posição correta, passa-se uma borracha para alisá-lo e fixá-lo. Na queima final da peça de porcelana, o papel adesivo é carbonizado, restando apenas a tinta impressa no decalque, que se funde ao verniz da porcelana.


jogo de café & chá da Porcellana Mauá,
decorado com uso de decalques e filetes em ouro

O transfer é um processo similar ao decalque, pois também é uma imagem impressa sobre um papel (ou tecido, forma mais antiga de aplicação de transfer). Mas enquanto o decalque é aplicado após a vitrificação da porcelana, o transfer é aplicado antes, desta forma ficando por baixo do verniz final ("baixo verniz"), e sendo mais resistente ao desgaste. Geralmente é monocromático, e é a forma tradicional de decoração das peças "azul e branco", e as decorações que costumam recobrir em larga escala uma peça, como cenas inglesas, padrões florais, etc.



peças da Matarazzo decoradas com uso de transfer

Os filetes são aplicados com dois tipos de pincéis: a trincha (pincel largo e sem ponta) e o pincel fino (de ponta fina e delicada). As peças são colocadas em um torno para que possam girar livremente, assim a mão do filetador pode ficar apoiada e fixa evitando falhas no filete.

Após a decoração, as peças passam pelo controle de qualidade e a seguir sofrem a segunda queima para fixação da decoração. Atualmente em algumas decorações e filete já está no decalque (adesivo), reduzindo assim o processo em apenas uma queima.